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Palestra ABVC e Cusco Baldoso: A Travessia Azul – 07/07/2018 – Marina Farol de Paraty – Gratuíto – Durante a CCV 2018

A Travessia Azul

Esta é mais do que uma palestra, é um bate-papo onde Juca Andrade e Alan Trimboli irão contar como foram os 38 dias vividos a bordo do veleiro Soneca, de 33 pés, na travessia entre Ubatuba e Cape Town, enquanto envolvem os participantes na discussão.

Contudo, em vez de apenas abordar o que já ouvimos em inúmeras outras palestras, nesta, os palestrantes, irão a fundo nos seus sentimentos e no que pode ser definido como o maior desafio em uma jornada como estas: o seu controle interior ao ter de passar tanto tempo confinado com outras duas pessoas, em um espaço exíguo, enfrentando seus medos, mantendo o barco integro e uma convivência harmoniosa! Continuar lendo Palestra ABVC e Cusco Baldoso: A Travessia Azul – 07/07/2018 – Marina Farol de Paraty – Gratuíto – Durante a CCV 2018

Travessia à vela de Ubatuba à Cape Town – Pré-venda do livro de Juca Andrade – Desconto para o leitor da SailBasil.

Boas!

Em janeiro desse ano eu e mais dois amigos fizemos uma travessia até a Africa do Sul, a bordo de um veleiro de apenas 33 pés.

Essa viagem deu origem ao livro:

  “A Travessia Azul: de Ubatuba à Cape Town a bordo de um pequeno veleiro”. Continuar lendo Travessia à vela de Ubatuba à Cape Town – Pré-venda do livro de Juca Andrade – Desconto para o leitor da SailBasil.

Palestra ABVC e Cusco Baldoso: A Travessia Azul – 06/06/2018 – Gratuíta

A Travessia Azul

Esta é mais do que uma palestra, é um bate-papo onde Juca Andrade e Alan Trimboli irão contar como foram os 38 dias vividos a bordo do veleiro Soneca, de 33 pés, na travessia entre Ubatuba e Cape Town, enquanto envolvem os participantes na discussão.

Contudo, em vez de apenas abordar o que já ouvimos em inúmeras outras palestras, nesta, os palestrantes, irão a fundo nos seus sentimentos e no que pode ser definido como o maior desafio em uma jornada como estas: o seu controle interior ao ter de passar tanto tempo confinado com outras duas pessoas, em um espaço exíguo, enfrentando seus medos, mantendo o barco integro e uma convivência harmoniosa! Continuar lendo Palestra ABVC e Cusco Baldoso: A Travessia Azul – 06/06/2018 – Gratuíta

Vagas para velejar – Joinville/Ubatuba e Cape Town/Ubatuba.

Boas!

Como parte de nossos preparativos para o Desafio Africa do Sul Cusco Baldoso Soneca 2018, o Tio Spinelli fez um curso avançado (CBVO # 108) navegando em área oceânica (a mais de vinte milhas da costa) e direto entre Ubatuba (SP) e Joinville (SC).

Na tripulação tivemos inicialmente três alunos: o Elton, o Vagner e a Tatiana. No dia da partida, 30/09, já em Ubatuba, o Elton recebeu uma triste notícia e teve que desembarcar (mais uma vez nossos sentimentos a ele e à Erica). Os planos mudaram um pouco e às 13h00 do domingo, 01/10, o Soneca partiu rumo à Santa Catarina.

Nosso esquema de aula me orgulha muito, devo confessar. Há escola de vela por ai que faz avançado entre Paraty e a Ilha Grande. Nós não, vamos muito além disso. E voltamos.

A seguir nossa conversa com o Tio Spinelli, assim que ele chegou em Joinville:

Juca Andrade: Qual a distância navegada entre Ubatuba e Joinville?

Tio Spinelli: Nossa derrota teve 298 milhas náuticas. É quase uma Refeno, mas em condições climáticas bem mais desafiadoras.

Juca: Qual o tempo previsto para esse trecho e em quanto tempo vocês o cumpriram?

Tio: Nossa previsão inicial era fazer em 60 horas (média de cinco nós).  Fizemos em 54, com o sol se pondo. Foi lindo! Tivesse vento o tempo todo e teríamos feito em menos de 48.  Foram 39 horas à vela, no leme de vento. Batemos o recorde do Soneca em 12 horas de navegação: 88 milhas, média de 7,3 nós!  

Juca: Como estavam as condições de vento e mar?

Tio: Variadas. Tivemos de tudo. Saímos de Ubatuba abrindo para a Ilha de Búzios, para passar a Ilhabela por fora e ganhar o mar aberto, rumo direito de Joinville. Tivemos clima alternado. Calmaria, vento, ventinho, ventão. Nas calmarias usamos o motor, infelizmente. No vento chegamos a pegar trinta e cinco nós, de alheta, com ondas de três metros e meio.  A Tatiana e o Vagner foram todo o tempo bastante solícitos, hábeis e aproveitaram muito a oportunidade.

 

Juca: E o barco, como se comportou?:

Tio: Muito bem! Houve um pequeno rasgo na vela mestra, mas nada sério e de certa forma esperado depois do que essa vela passou na Argentina. O destaque foi o leme de vento. Fiz algumas “melhorias” no projeto. Antes ele não mantinha o rumo na orça, derivando alguns graus. Isso foi corrigido e agora ele tem uma estabilidade de rumo impressionante em todas as mareações.

Juca: E o retorno, quando será? Temos vagas?

Tio: Acho que voltarei apenas em maio, você já viu a meteorologia? Não tem frente fria! Falando sério,  iniciaremos a volta no final de semana. Talvez tenhamos que fazer escalas, pois a Tatiana tem que estar em terra no dia 11/10. Ainda temos duas vagas para a volta. Quem quiser vir conosco é só entrar em contato com o Juca: capitao@cuscobaldoso.com.

Desafio África do Sul Cusco Baldoso Soneca 2018 parte de Ubatuba entre os dias 01 e 07 de janeiro de 2017. O dia exato depende apenas da meteorologia. A tripulação de ida já está fechada, mas a da volta ainda não. Ainda temos vagas para a volta e você pode vir com a gente!

 

Uma outra forma de velejar com a gente é ajudar nosso projeto por meio do APOIA.SE. Com uma pequena contribuição mensal o apoiador ganha como recompensa uma velejada no Soneca! Várias pessoas já estão nos apoiando e elas só temos que agradecer. Nosso amigo e apoiador Mauro Pascotto, inclusive, irá com sua esposa Myrna velejar no Soneca em… CAPE TOWN!

Para nos apoiar basta CLICAR AQUI!

E Vamos no pano mesmo.

 

Juca Andrade, CPA

Cusco Baldoso Escola de Vela Oceânica

CNPJ(MF) 15.438.156/0001-26

23º30.434 S – 45º06.751 W

cuscobaldoso.com

Vamos velejar até a Africa do Sul?

Boas!

Antes de ler esse post, preste muita atenção: ele pode mudar sua vida!

Uma das coisas mais incríveis da vela é que tudo aquilo que você lê nos livros pode ser feito, um dia, por você mesmo.

Pois essa é uma dessas oportunidades.

Em janeiro de 2018 a Cusco Baldoso e o veleiro Soneca farão a travessia do oceano atlântico com destino à Cidade do Cabo, na África do Sul. E você pode vir com a gente, embarcando em Ubatuba.

Por não haver obstáculos aparentes o melhor caminho seria, aparentemente, uma linha reta entre Ubatuba e a Cidade do Cabo. Bem, no mar não é exatamente assim que as coisas funcionam. É preciso escolher um caminho onde os ventos e as correntes marítimas sejam mais favoráveis, o que faz com que a distância mais rápida entre dois pontos quase nunca seja uma reta.

A ida é feita navegando-se mais ao sul, na altura da latitude 40ºS (the roaring forties), em direção às Ilhas Tristão da Cunha, situadas bem ao sul do oceano atlântico. A partir dali inicia-se uma “subida” para a costa da África do Sul, aproveitando as correntes e até mesmo alguns temporais que empurram as embarcações para o norte. As temperaturas médias experimentadas variam entre 10º e 30º C.  A melhor época para a ida é entre dezembro e março.

A volta é feita mais “por cima”, na altura da Ilha de Santa Helena. As temperaturas tendem a ser mais altas, mas ficam na mesma faixa da ida (entre 10º e 30º C) e os ventos e as correntes são favoráveis basicamente o ano todo.

A partida do Desafio África do Sul 2018 – Cusco Baldoso – Soneca será entre os dias 01  e 07 janeiro de 2018.

A volta ao Brasil iniciará entre os dias 14 e 21 de fevereiro de 2018.

Você pode fazer parte desse Desafio, seja como tripulante, seja como um apoiador (através do apoia.se).

Apesar de ser uma navegação longa e sem escalas, essa é uma travessia perfeitamente viável para qualquer pessoa com espírito de equipe, aventura e em boas condições de saúde.

Quer mais informações?

Abra o arquivo DESAFIO ÁFRICA DO SUL 2018 ou entre em contato com a gente.

Mas cuidado… depois disso o sofá lhe parecerá um lugar muito perigoso!

E vamos no pano mesmo!

 

Juca Andrade, CPA

Cusco Baldoso Escola de Vela Oceânica

CNPJ(MF) 15.438.156/0001-26

23º30.434 S – 45º06.751 W

cuscobaldoso.com

Palestra com Izabel Pimentel em Santos

izabel

Dia 27/05/2015 – quarta-feira – 19h30
Sede Social do Clube Internacional de Regatas

Inscrições gratuitas!

A velejadora Izabel Pimentel tem mais de 66 000 milhas navegadas em solitário. Primeira mulher da America Latina a completar uma Volta ao Mundo em solitário, passando pelos 3 mais temidos cabos: Cabo da Boa Esperança , Cabo Leeuwin e Cabo Horn. De 21 pés fez duas travessias Brasil-França e três travessias França-Brasil, em solitário. Primeira brasileira a participar da regata Transat 6.50, Regata de veleiros de 21 pés da França ao Brasil. Possui 5 livros: « Brasil e Portugal a remo », « A Travessia de uma mulher », « Muito além de uma escolha » “Aguas vermelhas” e « A canoa e o vento »

Realização: ABVC Santos
Apoio: Cusco Baldoso Escola de Vela Oceânica e Clube Internacional de Regatas

Relato da Refeno 2014 no Vento Real – Parte II

As águas azuis

Acordei antes das 07h00. O enjoo ainda me atormentava. Ao sair da cabine vi o Grajaú ao longe, em nossa popa. Olhei para o Sergio e pensamos a mesma coisa: ele está escoltando o fim da fila. Assumi o posto do Sergio, que desceu e foi ao radio:

– Grajaú, copia Vento Real?
– Afirmativo, prossiga.
– Grajaú, vocês podem nos informar se há algum veleiro cinco milhas a nossa frente?

O Capitão perguntava isso porque havia dúvida na interpretação de uma imagem radar, se era uma nuvem ou um navio. O operador do rádio do navio pediu que esperássemos e, após alguns instantes, respondeu:

– Vento Real, a cinco milhas não há nenhum… mas há dois veleiros num raio de oito milhas a sua frente.

Comentei com o Sergio que não estávamos tão atrás. Foi então que veio uma informação que era absolutamente inesperada:

– Apenas para informação – continuou o operador de rádio do Grajaú – vocês não são os últimos. Há mais dois veleiros atrás de vocês.

cusco-logo-newUAU!

Ao passar a bóia de Recife nós estávamos tão em último, mas tão em último, que era simplesmente inimaginável temos ultrapassado um outro veleiro. Dois, então?! A estratégia de manter o VMG = VM estava dando certo. A noite haviam barcos arribando ou orçando e com isso eles se afastavam de nós. Nossa navegação estava excelente… pena não temros largado na bico de proa ou, melhor ainda, na RGS!

Com o ânimo revigorado, continuamos no nosso caminho. Média de 5,4 nós. Lá pela hora do almoço meu enjoo passou. Enjoar não me é comum. Acontece mais quando eu não durmo direito, como vinha sendo o caso. Ao nosso redor não víamos mais nenhum barco, mas graças ao Grajaú sabíamos que não éramos os útlimos. João Pessoa ficava para trás.

Chamei o Bepaluhê no rádio, que me passou sua posição. Para meu espanto estava a apenas oito milhas de nós. A nossa frente, confirmados, havia ele e o JR01. A popa era a incognita, mas apostávamos nossas fichas que um daqueles barcos era o Jamaica III.

Pela primeira vez eu vi a tal água azul. Longe dos nutrientes do continente, a água do oceano fica mais pobre em partículas em suspensão. Perde o tom esverdeado e ganha uma cor azul de encher os olhos, difícil de comparar com qualquer outra coisa. A crista das ondas que arrebentam por causa do vento ficam da cor da pedra água marinha (talvez por isso o nome). Nem preciso dizer como isso é bonito.

No meio da tarde os golfinhos vieram nos fazer a primeira visita, sendo um deles filhote. Esses carinhas sempre nos deixam felizes.

O Capitão fez café. Mas com aquele joga joga do mar, o bule caiu e derramou o líquido todo dentro de nossa geladeira. Como ele é um homem de fibra, fez outro. Mas o barco também é guerreiro e o fez derrubar tudo de novo. Novo bule foi feito e alguns de nós nos servimos. Antes de eu pegar minha xícara, fui ao banheiro e ao sair tive meu primeiro momento matrix: voei e cai em cima da pia, derrubando quem? Sim, o café… as coisas da geladeria viraram uma mistura pouco amistosa. A viagem ficaria um poquinho mais longa.

Anoiteceu.

Coloquei Bob Dylan para tocar, sem parar, uma atrás da outra. Ainda em Santos eu me imaginava na proa, sentado, ouvindo Like a Roling Stone quando avistasse, enfim, Noronha. Mas isso ainda não seria no domingo.

Começamos a nos aproximar de Natal e o radar acusou alguns navios. Todos passaram sem maiores perigos. No escuro víamos alguns mastros, ao longe, um pouco mais a ré e à barla.

No rádio VHF o Grajaú deu lugar ao outro navio escolta da Marinha, o Triunfo – ou melhor, o REBOCADOR DE ALTO MAR TRIUNFO, pois seu nome sempre era chamado no VHF com certa pompa e circunstância. Entre nós ele logo ganhou um apelido carinhoso: “Chama lá o “Triunfão” e passa nossa posição!“.

Numa dessas vezes eu o chamei e perguntei quais eram os últimos barcos da regata. Como resposta, recebi um simpático: “Aguarde o final da competição“.

À meia noite acordei o o Alan. Dessa vez, porém, o Capitão Sergio foi mais rápido e deitou no beliche de sota. Eu deitei do jeito que deu no de barla, lá no “segundo andar” e peguei no sono. Menos de cinco minutos depois vivi meu segundo momento matrix: a cama veio de sopetão para baixo e, depois e covardemente, para o lado. O tombo foi feio e deixou claro que eu não iria dormir. Isso foi um pouco desesperador. Eu estava muito cansado. Uma opção seria ir para a cama de proa, mas nós a havíamos convertido em armário… paciência. Fomos eu e Dylan encontrar o Alan lá fora, onde ficamos dessa vez até o sol nascer. Como consolo restava o fato de saber (ou esperar) que não haveria outro “turno da noite”. No dia seguinte chegaríamos em Noronha.

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Like a roling stone…

Houve um momento muito interessante nesse terceiro e último dia a bordo: quando nos demos conta de que Natal estava mais distante do que Noronha. A capital do Rio Grande do Norte distava cento e vinte milhas de onde estávamos, ao passo que Noronha “apenas” noventa. Foi meio estranho imaginar que estava tão longe de terra, algo equivalente a distância entre Guarujá e Paraty. Além disso a profundidade onde navegávamos era de míseros quatro mil metros! Esses números nos fazem pensar em terra. Mas lá, no mar, a coisa soa tão natural que até chegam a não dizer nada.

O “Triunfão” estava silencioso. Chamou logo cedo, mas a propagação estava ruim e não copiou nossa resposta. Antes do almoço golfinhos roteadores fizeram um show na nossa popa. As aves marinhas passavam para lá e para cá. Na madrugada uma delas tentou pousar em nosso bimini. Para ajudá-la eu coloquei a lanterna em sua direção, mas acho que não deu muito certo pois ela se estatelou no mar…

Ao meio dia vimos algo inesperado: velas ao vento, a nossa popa! Veleiro a vista!!!

O vento baixou. Dos 25 nós da madrugada “despencou” para 15, depois 10, depois 8… Ora, isso não se faz!!! Interessante como nossos parâmetros mudam. Em Ubatuba o ventão da madrugada seria convidado a se retirar. Aqui era desejado com ardor. Tiramos o rizo da vela mestra.

As velas do outro veleiro mantiveram-se a nossa ré, à boreste. Sempre na mesma marcação, o que indicava que a velocidade era a mesma. Almoçamos e fomos vistados por baleias piloto. Pena que a câmera nunca está a mão nessas horas.

Curiosos por saber quem estava a nossa ré – no visual e fora dele – bolamos estratégias. O Capitão Sergio pensou em fingir ser outro barco, o USS Pernambuco, da Marinha dos EUA. Acho que não enganaríamos o valente “Rebocador de Alto Mar Trinfo” por muito tempo.

No fim da tarde, então, algo miraculoso aconteceu: as velas que nos seguiam no horizonte começaram a ganhar uma velocidade sobrenatural. A medida que o vento caia, mais elas andavam. Desceram no vento e terminaram bem a nossa frente, no rumo direto da Sapata. Mais do que isso: começaram a abrir distância! Quanto menos vento havia, mais eles andavam. Mistérios… mistérios… mistérios…

Não vimos Noronha chegar durante o dia. A 25 milhas – quando em geral se começa a ver terra – não se via nada, nem as nuvens que ficam por cima das ilhas oceânicas.

Anoiteceu. O vento subiu para quinze nós e o veleiro superandador a nossa frente começou a andar menos. Manteve-se a uma milha de nossa proa. Eu estava no leme e me guiava usando sua luz de mastro. Eram 20h30 quando um clarão se fez ver no horizonte. Terra a vista. Foi um momento sereno, quase natural – muito diferente do que eu pensei que fosse. E eu não estava ouvindo Like a roling stone

Pouco depois mudamos para o canal 77 e ouvimos o valeiro misterioso anunciar seu nome: “CR, CR, aqui Jamaica III, Montamos a Ponta da Sapata“. Hum, era ele, o Jamaica III!

Quando montamos a Sapata entreguei o leme ao Capitão Sergio. A honra de chegar em Noronha deveria ser dele. Afinal foi ele que em solitário saiu da Boreal em uma manhã chuvosa de sábado e levou o barco sozinho até Recife. Foi ele quem gastou nove anos de sua vida fazendo aquele barco. E fez tudo isso como se fosse a coisa mais normal do mundo. O Sergio é um homem verdadeiramente do mar e merece minha mais profunda admiração.

Eu imaginava Noronha como uma ilha monstruosa, saindo do mar e indo raivosa em direção ao céu, ganhando as alturas. Mas não. Ao chegar ali o que encontrei foi uma “pedrinha” tão bela, quanto frágil. Ilha que é quase ilhota. Delicada. Pequenina. Baixinha. Uma sillhueta de Niemayer no meio da escuridão do deserto do oceano.

Pelo rádio acompanhamos a chegada do Jamaica III e soubemos que um veleiro que estava atrás de nós desistiu e ligou o motor. O Tartaruga seria do jamaica III e foi melhor ter sido assim, para alegria do nosso Capitão que relutava em aceitar a honraria.

Menos de meia hora depois de montarmos a Ponta da Sapata ouvimos no canal 77:

– Veleiro que se aproxima da CR, identifique-se.
– CR, aqui Vento Real – respondeu o Alan.
– Vento Real, você consegue ver a linha de chegada?
– Afirmativo.
– Vento Real, ilumine suas velas.

Houve um breve silêncio e então as palavras que eu nunca irei esquecer:

– Vento Real, bem vindo a Fernando de Noronha.

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Fotos: Juca Andrade – Cusco Baldoso Escola de Vela Oceânica

Juca Andra
Veleiro Vento Real
http://veleirobaldoso.blogspot.com.br/

Texto, fotos e vídeos reproduzidos pela SailBrasil Vida de Cruzeiro com autorização dos autores.

Relato Refeno 2014 no Vento Real – Parte I

Preparação e largada

Graças ao meu amigo Alan Trimboli, dono do Meltemi, consegui participar esse ano da Refeno 2014. Ele e sua esposa Leila seriam tripulantes do Vento Real, um Multichine 31 construído ao longo de nove anos pelo Sergio. O Vento Real, o Meltemi e o Malagô já foram vizinhos na Boreal e eu sabia que em tese haveria mais uma vaga. Não sou muito de pedir nada aos outros, mas com a impossibilidade de o Caulimaran ir para a regata e diante do fato de eu estar com simplesmente tudo pronto, não me perdoaria se me conformasse com aquela situação: trabalhar ao invés de ir para Noronha! O “não” eu já tinha, então pior não poderia ficar.

A resposta, porém, demorou e meu humor foi ficando cada vez mais azedo. É que o Sergio estava indo de Aracaju para Recife (sim, ele entrou sozinho e a noite naquela barra pavorosa) e naturalmente o Alan precisaria conversar com ele antes. Enquanto isso o telefone era apenas silêncio. Passado o final de semana e a segunda-feira a resposta veio apenas na terça, 23/09! “- Juquinha, você queria muito ir para Noronha? Então… pode ir!!!”. Sim, depois de tantas tentativas frustradas eu estava na Refeno!

Embarquei para Recife no dia 25/09 e às 10h30 já estava no Cabanga, a bordo do Vento Real.

O clima era quente e muito legal. Um clube com dezenas de barcos respirando vela. Gente de todo lugar. Amigos novos e velhos por todo o lado. O Alan e a Leila chegaram às 14h00 do mesmo dia.

Fizemos compras, abastecemos o barco de água e diesel e revisamos motor, velas e estaiamento. Passamos pelas etapas intermináveis de inspeção e liberação do barco pela Marinha. Na noite do dia 26/09 veio a primeira notícia complicada: por entender de regatas o mesmo que eu entendo de sânscrito arcaico, o Sergio nos inscreveu na categoria aberta. Ocorre que essa era a categoria que largaria por último, às 14h00 (a primeira largada seria 12h30, a segunda às 13h00, a terceira às 13h30 e finalmente a nossa) e isso não era sem motivo: ela trazia os veleiros mais rápidos: os trimarãs e monocascos acima de 50 pés (dentre eles o Caramiranga, nada menos do que o fita azul dessa edição). O Vento Real, por sua vez, era o menor da flotilha, com apenas 31 pés.

cusco-logo-newA Refeno costuma ser uma regata onde os ventos de través ou orça folgada imperam. Isso quer dizer que quanto maior a linha d’água do barco, mas vantagem competitiva (velocidade) ele tem. Assim competir para valer com trimarãs ou com veleiros com o dobro da nossa linha d’água era virtualmente impossível, ainda mais sem um critério de correção de tempo, como a RGS!

Ficamos um pouco atordoados (ninguém quer ser o último sem ter chances de lutar, nem que sejam chances meramente psicológicas) e tentamos mudar isso. O ideal teria sido nossa inscrição na categoria bico de proa, a primeira a largar. Mas a reunião de comandantes já havia acontecido e essa alteração não seria possível. Paciência. De qualquer forma eu estava cem por cento no lucro, pois não era nem para eu estar ali.

Por conta da maré saímos do clube às 09h00 do sábado, 27/09 e fomos para área de espera, onde fundeamos e… esperamos. Almoçamos às 11h30: bife com legumes, feito pela Leila. Uma novidade é que na hierarquia de bordo eu era o último, até por ser o recém chegado. Por conta disso, lavei a louça. E eu ia reclamar?

A largada era dividida em fases. Ao meio dia as classes bico de proa e aço (onde o maravilhoso Bepaluhê estava inscrito) pôde entrar na área de check. Todos os barcos, então, passavam por uma bóia, próximo à platéia e ao narrador, que apresentava os barcos e fazia comentários. Feito esse check os barcos recuavam e esperavam o sinal de cinco minutos para a largada (um pouco antes do Marco Zero do Recife), depois de quatro, um e, enfim, a partida. Esse último tiro era também o sinal para a próxima classe entrar na área de check.

A área de espera foi esvaziando. Um veleiro desistiu ali mesmo, por problemas com o motor. Às 13h30 partimos para fazer nosso check. Quando o narrador apresentou nosso barco e a platéia aplaudiu nos sentimos um pouco pop stars da vela e menos a porcaria que de fato somos. Já participei de regatas antes, mas com narrador e platéia, essa foi a primeira vez e confesso que é bem legal.

No tiro de quatro minutos estávamos recuados da linha de largada, mas bem perto. O vento, porém, resolveu acabar e de vez! Isso porque minutos antes – e nas outras largadas – ele estava presente e acima de dez nós! A linha de chegada foi se aproximando, se aproximando, se aproximando… veio o tiro de um minuto e tanto nós quanto o veleiro Miss Carol estávamos escapados, ele um pouco mais a nossa ré. Mas não dava para fazer nada, pois já estávamos em regata e não poderíamos ligar o motor.

O tiro de largada foi dado conosco escapados mais de trezentos metros. Por ironia o vento voltou fraquinho. O Camiranga veio lá do fundo, desfraldando uma code zero maravilhosa mostrando como é que se faz. Um tripulante do Miss Carol veio nos parabenizar pela “bela largada”. Eu achei que ele estava sendo irônico e até fiquei meio bravo, mas depois descobri que ele simplesmente não sabia o que estava dizendo. A CR logo nos esclareceu, via rádio VHF:

“- Os veleiros Vento Real e Miss Carol largaram escapados e terão trinta minutos de acréscimo no tempo de regata. Podem continuar a regata”.

Peguei o VHF e respondi: “- Vento Real ciente e de acordo”.

O que já estava difícil ficou ainda mais complicado…

A mesa de navegação do Vento Real.
A mesa de navegação do Vento Real.
Salão do Vento Real: dois carrinhos de supermercado desapareceram nos armários e havia espaço para mais coisas. Barcos do Cabinho são únicos!
Salão do Vento Real: dois carrinhos de supermercado desapareceram nos armários e havia espaço para mais coisas. Barcos do Cabinho são únicos!
Cozinha...
Cozinha…
... banheiro.
… banheiro.
O Marco Zero.
O Marco Zero.
O Capitão Sergio e o Alan discutindo os últimos detalhes da navegação.
O Capitão Sergio e o Alan discutindo os últimos detalhes da navegação.
Área de espera...
Área de espera…
... Telémaco II, veleiro argentino.
… Telémaco II, veleiro argentino.
A largada estava chegando.
A largada estava chegando.
O almoço também!
O almoço também!
Pessoas assistindo a largada no centro do Recife.
Pessoas assistindo a largada no centro do Recife.
O Marco Zero.
O Marco Zero.
Tripulação pop star!
Tripulação pop star!
E o vento...
E o vento…
... se foi.
… se foi.
Largamos escapados...
Largamos escapados…
... e ganhamos 30 minutos de penalização...
… e ganhamos 30 minutos de penalização…
...assim como o Miss Carol.
…assim como o Miss Carol.

 

A bóia de Boa Viagem

Esse ano houve uma alteração no percurso da Refeno, o que segundo a organização a reaproxima de suas origens. Antes de seguir para Noronha os barcos tiveram que voltar algumas milhas indo até uma bóia que fica entre a praia de Boa Viagem e o bairro Brasília Teimosa. Duvido que alguém tenha realmente gostado disso, pois serviu apenas para atrasar todo mundo. Mas regras são regras.

Para nós chegar até essa bóia não foi fácil. Com pouco vento os veleiros mais rápidos logo nos deixaram para trás e ao chegamos no final do molhe do porto o duelo era apenas entre o Jamaica III e a gente. Aquele barco argentino era um bocadinho maior, mas andava muito parecido conosco. Lembrei que poderíamos brigar pelo Troféu Tartaruga, já que estávamos em penúltimo e bastava andar melhor do que o Jamaica, o que naquela altura não parecia tão complicado assim. O Capitão não gostou nada da ideia. Não queria ser uma tartaruga…

A verdade é que nem o tartaruga seria fácil de ser conquistado. A medida que manobrávamos o barco apenas à vela, nossos problemas aumentaram. Descobrimos que o Vento Real não tem ainda uma ergonomia adequada. O barco é novo (fevereiro de 2014) e foi pouco testado. As catracas não aceitam um giro completo das manicacas e a escota da genoa está instalada de forma incorreta e frágil. Dar um bordo era um parto – e um parto normal.

O vento na cara começou a aumentar. Então enfrentamos nosso primeiro pirajá – uma nuvem vinda do mar que trouxe ventos na casa dos 25 nós, fez crescer o mar e trouxe chuva bem forte. Bordo para cá, bordo para lá (uma luta para cá, outra para lá) e o Jamaica III nos passou e montou a bóia na nossa frente. Era o fim.

O moral baixou. O Capitão fez menção de desistir. Fingimos que não escutamos. Não era uma barla sota, mas uma regata de trezentas milhas. Muita coisa poderia acontecer, ainda que todas as chances estivessem contra nós.

Quando montamos a bóia, em último e com o Jamaica III lá na frente, a noite começou a cair. O vento uivava nos estais. O mar estava alto. Conversamos e decidimos que a melhor estratégia seria manter o barco inteiro e no melhor rumo direto para a Ponta da Sapata, nossa entrada em Noronha, com o máximo de regularidade na velocidade média, desde antes estimada em cinco nós. Era melhor andar com o VMG = Velocidade a cinco nós do que andar a sete nós e ter que fazer estripulias no rumo, percorrendo uma distância maior. Foi o que fizemos: 60 graus na agulha o tempo todo e com a obsessão de manter a velocidade nos cinco nós.

Estava frio. A noite caiu de vez, mas antes colocamos a mestra no primeiro rizo. O barco ficou mais dócil, mas ainda atravessava. Demos o segundo rizo e o barco voltou a ficar “na mão”. A flotilha estava lá na frente. Éramos apenas nós e o outro pirajá que nos encontrou no través da cidade de Paulista, ainda em Pernambuco. Já estávamos bem rizados de mestra, de forma que apenas enrolar um pouco a genoa foi suficiente. Jantamos cachorros quentes, feitos pela Leila – um primor!

Às 22h00 e o Alan e a Leila foram deitar. Eu e o Sergio ficamos no leme, ele levando e eu olhando para o horizonte. As ondas de través faziam o barco jogar de forma cadenciada: quatro “bundadinhas” fracas, depois uma bem forte e assim sucessivamente.

Enjoei. Mas não conseguia vomitar. Fiquei apenas com aquela sensação horrível. Não quis tomar nenhum remédio, pois fazer turno de leme com sono não era a coisa mais sábia a se fazer.

No rádio, então, começou um pandemônio. Éramos a essa altura acompanhados por um navio patrulha da Marinha, o Grajaú – P-40, que a toda hora pedia posições de barcos e informações sobre veleiros que não estavam ao seu alcance. Pelo que ouvíamos o mundo estava acabando para os trimarãs. Um sem mastro, outro sem leme, outro com problemas de “locomoção”. Desistências em série, aos montes. Olhamos em volta e víamos apenas luzes de mastro ao longe. No radar os veleiros começavam a se distanciar. Aquele clima nos indicava que a coisa não estava fácil para ninguém.

O Fandango chamava o Grajaú, mas apenas nós do Vento Real e o Bepaluhê conseguíamos ouvi-lo e o contestávamos. Era bom ouvir a voz do Paulo, do Bepaluhê. Acabei fazendo uma ponte entre o Fandango e o Grajaú: um dos cascos fazia água. Eles controlaram mas desistiam da regata. Todos a bordo estavam bem. Glup!

O enjoo me consumia. À meia noite chamei o Alan, que assumiu o leme. Antes ele me deu um plasil. Deitei um pouco mas não conseguia ficar dentro da cabine, que jogava muito. Sai e deitei lá fora. A costa ia ficando cada vez mais ao longe. Nosso Capitão, Sergio, deitou e dormiu.

Às 04h00 o Sergio rendeu o Alan, acordado por um tombo do tipo matrix . Um pouco melhor do enjoo e muito cansado, fui dormir também. Estávamos no través de João Pessoa e dava para ver claramente que a partir dali o clarão da costa deixava de ser paralelo ao nosso rumo, fazendo a “curva” para dentro. O Capitão tocou o barco sozinho até o amanhecer.

P-40 - NPa Grajaú, um de nossos anjos da guarda.
P-40 – NPa Grajaú, um de nossos anjos da guarda.

(continua…)

Fotos: Juca Andrade – Cusco Baldoso Escola de Vela Oceânica

Juca Andrade
Veleiro Vento Real
http://veleirobaldoso.blogspot.com.br/

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