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Por causa do motor, ficamos dois meses sem velejar.

Antigo motor Volvo Penta 2003T (turbo) - ano 1987 - Foto: Max Gorissen
Antigo motor Volvo Penta 2003T (turbo) – ano 1987 – Foto: Max Gorissen

Apenas esclarecendo para quem não leu o relato anterior (clique aqui para ler) onde descrevo a viagem do Rio de Janeiro à Santos antes do natal de 2014, o motor do Gaia 1, um Volvo Penta 2003T (turbo) de 1987, simplesmente pifou!

Ele já dava sinais de que não aguentaria o uso que pretendo dar a este veleiro, onde tudo gira em torno de velejadas longas de cruzeiro, em vários lugares da costa brasileira, antes de rumar para águas internacionais.

Ainda tentei, e consegui, fazer o motor ligar novamente, mas ele decidiu pela aposentadoria (pelo histórico de regatas e viagens para diversos locais do Brasil, é bem merecido!) e, nem um mecânico experiente em Volvo Penta, sua última chance, conseguiu fazê-lo voltar à ativa.

A solução foi buscar outro motor, em pleno Janeiro de 2015, época de férias no Brasil.

Por sorte, no Guarujá, as Assistências Técnicas Autorizadas são excelentes! Cotei um Volvo Penta modelo DR-40R e um Yanmar modelo 3JH5.KM35A. Ambos com a mesma potência, +/- 40 Hp e a pronta entrega.

Como tenho um Yanmar 1GM de 9 Hp no meu veleiro ORM e nunca tive nestes 15 anos nenhum problema, além de conhecer a rede autorizada e saber onde encontrar peças de reposição, optei pelo Yanmar.

Outra premissa era que o motor atendesse às novas exigências internacionais de emissão de poluentes, o que ambos atendem.

O motor chegou ao Guarujá no dia 14 de Janeiro e, no mesmo dia, recebi a programação e a lista de peças e MO.

Tudo aprovado, valores depositados, marina avisada, decidimos retirar o motor e instalar o novo motor com o veleiro dentro da água, para evitar a deformidade do casco, comum quando se retira o veleiro da água e se apoia o mesmo na quilha e nos suportes reguláveis de sustentação.

É obvio que, quando se retira o motor, é que se percebe que existe uma série de, vamos chamar de inconvenientes, para se montar o novo motor, sem contar o que já sabíamos de antemão como, por exemplo, a troca de todo o sistema de escapamento que passou de 2 polegadas no Volvo para 3 polegadas no Yanmar.

Novo motor Yanmar instalado - Foto: Max Gorissen
Novo motor Yanmar instalado – Foto: Max Gorissen

De qualquer maneira, não vou relatar os infortúnios pelo qual passamos durante todo o processo de troca do motor. Todo velejador sabe e entende que, quando se mexe em qualquer coisa no veleiro, sempre tem algo complicado que leva tempo para solucionar.

O que importa é que, no dia 28/02/2015, o novo motor estava no lugar, montado, com todos os seus instrumentos ligados, tanque de diesel limpo e abastecido, só esperando para realizar o teste de Prova de Mar … nesse mesmo dia, chovia torrencialmente no Guarujá!

Como velejador sempre tem de passar por mais um pouco de sofrimento antes de aproveitar a liberdade e o prazer de velejar, mesmo tendo combinado sair com chuva mesmo, fui avisado de que o teste somente seria realizado se mandasse limpar o fundo para tirar o limo e as cracas que se acumularam nos últimos dois meses… assim, em cima da hora… às 12:00 hs saio para buscar um mergulhador… Bendito o Benedito Mergulhador, que me atendeu imediatamente e às 14:00 hs já havia terminado o serviço e o Gaia 1 estava com o casco limpo, esperando o mecânico para sair e realizar o teste.

Cabeça do Benedito Mergulhador limpando o casco - Foto: Max Gorissen
Cabeça do Benedito Mergulhador limpando o casco – Foto: Max Gorissen

Contudo, o teste foi mais uma vez de paciência já que, o mecânico, havia se enrolado na manutenção do motor de uma lancha na Marina Nacionais, do outro lado do Guarujá, e chegaria em 1,5 horas… mais para 2,5 horas, pelo meu relógio… mas chegou… e saímos às 16:00 hs, não sob forte chuva, mas sim, sob um final de tarde ensolarado… prova de que estava terminando a etapa de sofrimento para entrar na etapa de liberdade e prazer de velejar!

Saindo para teste do motor - Foto: Zabetta
Saindo para teste do motor – Foto: Zabetta

O teste foi sendo executado conforme o procedimento imposto pela fábrica, contudo, já ao ligar o motor, percebemos uma forte vibração no ponto-morto, sinal de que o alinhamento entre a flange e o acoplamento do eixo do hélice (pé-de-galinha) não havia ficado perfeito. Em 1.000 RPM a vibração era sensível, aos 2.000 RPM perceptível e aos 3.000 RPM impossível de manter já que tudo vibrava… como velejador não fica sem pelo menos navegar, OK, definido, Domingo saio a 2.000 RPM!

Gostaria de deixar registrado que o serviço do pessoal da Yamamoto Boat, revenda autorizada Yanmar no Guarujá, foi sempre profissional e impecável! Valeu!

Saída no Domingo com a família

Interior com os antigos estofados azuis (originais) e as capas feitas xadrez amarela e azul
Interior com os antigos estofados azuis (originais) e as capas feitas xadrez amarela e azul

Domingo, acordamos às 9:45 hs e tomamos um café da manhã tranquilo, na nossa casa no Guarujá e não no veleiro, pois não tinha ficado pronto o novo estofamento das camas e dos sofás da cabine principal que havíamos encomendado duas semanas antes.

Havíamos decidido trocar o antigo estofado com acabamento em linhão Azul Marinho, original do veleiro e já bem gasto, e as capas feitas pelo dono anterior, com uma estampa xadrez amarelo e azul clara, por um estofado de ante mofo branco. Também trocamos as cortinas, que eram da mesma estampa xadrez amarelo e azul clara por brancas… quando instalarem tiro fotos e adiciono ao blog (foto incluída abaixo).

Novo estofado. O interior do veleiro ficou muito mais claro. - Foto: Max Gorissen
Novo estofado. O interior do veleiro ficou muito mais claro. – Foto: Max Gorissen

A saída neste Domingo tinha dois objetivos; inaugurar o novo motor e levar o veleiro para a Marina Supmar, onde ficará pelos próximos meses, até que decida onde será o ancoradouro pelo próximo período de aventura; Ilhabela, Ubatuba ou Paraty.

Antes, almoçamos no restaurante do ICS, onde é possível saborear pratos deliciosos. Comi um bife à milanesa com salada de batata que estava delicioso.

Finalizei o abastecimento com diesel Verana, pois tinha colocado apenas 40 litros para o teste, e saímos, minha esposa Zabetta, meu filho Maximilian e eu, para um passeio a motor até a Ponta Grossa, limite da Baía de Santos.

Balizamento da entrada do Canal de Santos - Foto: Max Gorissen
Balizamento da entrada do Canal de Santos – Foto: Max Gorissen

O dia estava espetacular, ensolarado e com um vento NW de uns 15 nós. Não dava para acreditar que no dia anterior a chuva foi tão forte que alagou parte do Guarujá, apesar de que, para alagar o Guarujá hoje em dia, qualquer chuvinha alaga.

De qualquer maneira, curtimos a “paisagem de porto”, com seus enormes navios container entrando e saindo, a fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, a praia do Góis (23º 59,811´ S e 46º 18,843´ W), Praia do Sangava (24º 00,084´ S e 46º 19,286´ W), Ilha das Palmas (24º 00,360´ S e 46º 19,392´ W) onde fica o Clube de Pesca de Santos, e toda a mata da costa do Guarujá enraizada nas rochas que dão no mar. Divino! Santos, no outro bordo, é uma orla com um paredão de prédios que, se não fosse uma que outra construção antiga, é muito feio!

O ponto alto do passeio foi pegar umas marolas de uns 4 metros, pela proa, na entrada do porto, com minha esposa e meu filho sentados na borda para molhar os pés na subida e descida das marolas e nas batidas do casco nas ondas.

Navios entrando e saindo do porto de Santos - Foto: Zabetta
Navios entrando e saindo do porto de Santos – Foto: Zabetta

Ao retornar do passeio, deixei a Zabetta no ICS (23º 59′ 13″ S e 46º 17′ 6″ W) para pegar o carro, e partimos, o Maxy e eu, para a Marina Supmar (23º 59′ 47″ S e 46º 15′ 53″ W) onde chegamos e paramos na vaga indicada, pelo rapaz do pier e a Zabetta, que já havia chegado. Eram por volta das 16:00 hs e estava na hora de voltar para São Paulo.

Veleiro Gaia 1 na sua nova vaga na Marina Supmar - Foto: Max Gorissen
Veleiro Gaia 1 na sua nova vaga na Marina Supmar – Foto: Max Gorissen

A semana do 02 ao 06 de Março de 2015 será intensa para o Gaia 1 já que, vão finalizar a instalação do motor, o eletricista deve terminar a instalação elétrica, o estofador deve entregar o novo estofado, mandei retirar todo o hardware da estrutura da cabine (não do deck), inclusive os vidros e gaiútas para trocar a vedação (Sikaflex), o Sr. Alcide (marinheiro) deve realizar uma limpeza “profunda” no veleiro e, para finalizar, trouxe o fogão de 3 bocas para São Paulo para uma limpeza e revisão e devo mandar alguém substituir toda tubulação de cobre do gás… de qualquer maneira, nada disto evita de sair para velejar!

Como escrevi no início, está na hora de aproveitar a liberdade e o prazer de velejar.

Bons ventos!

Max Gorissen

Petit Prince chega a Arraial d'Ajuda na Bahia.

Atlântico Sul – Brasil.

Bahia, Arraial d’Ajuda.

Do outro lado deste raso e sinuoso rio Buranhém está Porto Seguro.

Bahia, Arraial d'Ajuda - Foto: Paulo Vinícius Arruda Passos
Bahia, Arraial d’Ajuda – Foto: Paulo Vinícius Arruda Passos

Ontem, por volta das 16:00 horas conseguimos entrar na barra e atracar no pier da prefeitura de Porto Seguro. Em meia maré vazante.

Foram 22 horas navegando desde do arquipélago de Abrolhos. Com lestão nos empurrando. E direito a uma tentativa frustrada de aportar em Santo André.

ChartPlotter - Bahia - Foto: Paulo Vinícius Arruda Passos
ChartPlotter – Bahia – Foto: Paulo Vinícius Arruda Passos
Sorria, Petit Prince está na Bahia - Foto: Paulo Vinícius Arruda Passos
Sorria, Petit Prince está na Bahia – Foto: Paulo Vinícius Arruda Passos

Quase meia noite, com a volta da maré enchendo, um anjo da guarda, em forma de traineira de pesca, nos guiou pelos meandros e mistérios da traiçoeira noite escura. Nos trouxe até este hotel marina em Arraial d’Ajuda. Ou seja, na margem direita do Buranhém.

Em frente a marina, com maré baixa, vemos os bancos de areia aflorarem.

Porto Seguro – Arraial d’Ajuda, a primeira vez que aportamos aqui também foi de veleiro. Estávamos levando um velamar 32, Glorinha, do Rio para Salvador.

Era verão. Véspera de Carnaval. O Comandante era a lenda viva Roque Luiz Silva Araújo. Foi a primeira vez que vi uma exibida jubarte saltar.

Época de Lambada. Em cada porto subiam e desciam tripulantes.

Também paramos em Abrolhos para passar o dia. Sem vento, estava uma piscina. Nunca tinha mergulhado com tantos e variados peixes. Assistimos, enebriados, uma lua cheia gigante nascer no mar. Do lado do belo e sóbrio farol da ilha de Santa Bárbara. Daquelas cenas lindíssimas que jamais esqueceremos. A fita cassete tocava The Police, “walking in the moon”. Viajamos, no excepcional día que estávamos tendo, na música, no super bom astral reinante.

Aqui em Porto Seguro embarcamos duas mochileiras dinamarquesas. Com as loirinhas fomos para Ilhéus, Morro de São Paulo e chegamos em Salvador. Amizades por alguns anos.

Viagem expecional, mágica.

Infindável o fascínio que estas viagens de veleiro despertam.

Agora temos a bordo uma destemida e simpática jovem de 22 anos. Linda e com eterno semblante de felicidade estampado no rosto. Nunca tinha entrado em um veleiro. Embarcou em Búzios. De cara, já fez quase 400 milhas de mar aberto. Tá amarradona a intrépida marinheira de primeira viagem.

Amanhã completa duas semanas que saímos de Angra dos Reis. Viagem que não tem muita data para terminar.

Iremos correr a regata Refeno – Recife para Fernando de Noronha. Depois subir para o Caribe. Tentar atravessar o Atlântico Norte com objetivo de chegar em Trønso, Noruega. Vamos ver se os Elementos concordam e aprovam nossos planos.

Ontem estes não nos deixaram aportar em Santo André, o porto que iriamos ficar. Poucas milhas ao norte de onde estamos. Esperamos ter a sabedoria para respeitar os caprichos das Entidades…

Aqui nesta região pretendemos passar alguns dias. Voltar a subir para o norte por volta do dia 20.

Chuva e tempo encoberto não combina muito com o nordeste brasileiro. Com certeza é uma bênção chover um cadinho por aqui também.

ÓTIMA E ENSOLARADA QUARTA PARATY (o:

 

Paulo Vinícius Arruda Passos

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Sail Ipanema: Da Croácia, pelo Mar Adriático, rumo a Puglia – Itália

E depois de 2 meses velejando arrumando o barco e velejando próxima a Split, foi tempo de nos despedirmos da cidade e da adorável Croácia. Dizer adeus a esse país incrível e aos nossos novos amigos não foi fácil. Na nossa despedida na marina de Split, a Vicky e o Duje, um casal de amigos supersimpático, nos prepararam um “Kit de Sobrevivência Croata”, uma caixa cheia de guloseimas, refrigerantes e chocolates Croatas…. Foi difícil conter as lágrimas. Essa viagem é realmente sobre isso, conhecer lugares e pessoas incríveis por esse mundo a fora.

 

E assim saímos de Split e seguimos viagem em direção ao Sul da Croácia, dessa vez na companhia do Ino e da Ivana, outro casal de Croatas incríveis que conhecemos durante nossa estadia por lá.

 

Foi também a primeira vez com o Feijão finalmente a bordo! 🙂

 

Na primeira noite dormimos novamente na ilha de Brac, mas dessa vez na baía de Stipanska. Nas primeiras 24h ele ainda estava apreensivo e não saia muito de dento do barco, mas bastou passar 48h que o Feijão já tinha se tornado o capitão do barco, ele agora já anda por todas as partes e já aprendeu a fazer as suas “necessidades” no lugar certo.

 

Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato

E assim seguimos, continuando nosso caminho ao sul de vento em popa!

 

Passamos pela linda e pacata ilha Scedro, que tem apenas umas cinco ou seis casinhas, e depois Korcula, que lembra uma mini-Dubrovnik, também cercada por uma muralha, igualmente charmosa e menos turística – reza a lenda que o famoso Marco Polo inclusive começou suas aventuras pelo mundo desse lugar.

 

Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato

E antes de chegar a Dubrovnik, passamos uma noite ancorados no Sul da ilha Mljet, que boa parte é protegida por um parque nacional.

 

Nessas últimas semanas tivemos alguns perrengues típicos de barco, um probleminha com o bilge, um concerto necessário em um dos motores, tivemos que comprar um novo inversor e foi preciso encomendar uma nova hélice para o motor do nosso botinho, que dias antes tinha saído voando por aí….

 

Conseguimos resolver praticamente tudo em Dubrovnik, mas em vez de um dia, a hélice só chegou no terceiro dia. Com isso, perdemos a ida para Montenegro, uma verdadeira pena, mas pudemos explorar e aproveitar ainda mais a maravilhosa Dubrovnik, hoje em dia ainda mais turística pela famosa série de TV Games of Thrones.

 

Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato

Dubrovnik foi, sem dúvida, um cartão postal inesquecível para nos despedirmos da Croácia e, enfim, fazer a nossa maior travessia até agora, o Mar Adriatico, em direçāo a Bari, na Puglia, para receber nossos novos hospedes.

 

Numa linha reta, deveria ser 200km, e havíamos estimado uma viagem de umas 16 horas. Mas, por conta de ventos um pouco acima da previsão (35 nós) e umas ondas chatas que chegavam bem na lateral do barco, demorarmos quase 24h para chegar, um dia inteiro.

 

Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato

E foi ai que começamos realmente a velejar e logo em seguida percebemos que um dos reefs da vela principal não estava bem colocado. E para piorar, a Genoa (vela da frente) estava emperrada e não abria mais do que 30% da área total, o que fez com que navegássemos ainda mais devagar.

 

Depois de quase 80% da travessia completa, exaustos, fazendo shifts e revezando entre nós dois a cada 3-4 horas, percebemos que a vela principal começou a rasgar bem no maio, rente ao mastro. Foi quando desistimos finalmente do velejo nessa viagem, ligamos os motores e seguimos viagem, chegando em Bari sans e salvos!!

 

E foi só chegar na Itália que nossa maré de azar começou a passar!! Fomos recebidos de cara na Marina Ranieri pelos simpáticos Nicolas e Cesare, que prontamente nos ajudaram com os cabos e toda a informação que precisávamos!

 

Como nossos hospedes Rosa e Haroldo, brasileiros radicados em Londres, chegariam na manhã seguinte, precisávamos resolver tudo o quanto antes.

 

Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato

Foi quando o Nicola nos indicou o Luigi, que nos apresentou ao Fernando, um brasileiro radicado a mais de 25 anos em Bari, que concerta e faz velas. Uma pessoa incrível, competente e com um coração do tamanho do mundo. Mesmo sendo o pico da temporada e ele estando super ocupado, Fernando conseguiu encaixar o concerto da nossa vela e arrumou tudo no seu dia de folga. Incrível!!

 

E como nada acontece por acaso nessa vida, o que até então a gente achava que (o rasgo da vela) era a pior coisa que poderia ter acontecido, resultou que por conta disso acabamos por conhecer Bari e o famoso Fernando.

 

O Fernando é o melhor “embaixador” que o Brasil poderia ter na Itália, casado com uma verdadeira Italiana, a Rossana, os dois contam com um grupo enorme de amigos que se juntam semanalmente para comer, beber e se divertir. No mesmo dia em que nos conhecemos, Fernando e Rossana levaram a nós e aos nossos recém-chegados hospedes, para um churrasco na casa de um desses amigos, com umas 20 e tantas pessoas e quilos e litros de comida e vinho. No dia seguinte, eles nos convidaram para almoçar em sua casa, onde nos deliciamos numa massa caseira feita especialmente pela Rossana.

 

Nossa, que recepção e chegada na Itália!

 

Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato

E nossos hospedes, Rosa e Haroldo, foram a melhor surpresa, supersimpáticos, espirituosos e de bem com a vida. Super entenderam os inesperados que podem acontecer nessa vida de barco e aproveitaram ao máximo tudo com a gente.

 

E na manhã de segunda feira, com as velas já no lugar, e um kit de reparação feito com carinho pelo nosso mais novo amigo Fernando, zarpamos em direção a Polignano a Mare, e acabamos ancorando em Monopoli, uma charmosa cidadezinha no sul da bota.

 

Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato

Em Monopoli continuamos a nos deliciar com as tentações italianas, entre vinhos, azeite, pão, massa, gelatti, etc.

 

Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato

Depois de uma noite muito bem dormida atracados na parede da cidade de Monopoli, passamos por Brindisi para fazer o Check-out do país com a Capitania dos Portos e partimos em direção a Grécia, Corfu, aqui vamos nos!!

Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema - Sarah/Renato
Foto: Sail Ipanema – Sarah/Renato

 

Estamos ansiosos e animados com essa nova travessia, a previsão é de vento a favor e vai ser ótimo ter mais ajuda com mais gente no barco.

 

Para maiores informações:

Contato: Sarah ou Renato

Site: www.sailipanema.com

E-mail: sailipanema@gmail.com

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Texto, fotos e vídeos reproduzidos pela SailBrasil Vida de Cruzeiro com autorização dos autores.

Jayapura nosso primeiro porto na Indonésia

Nossa passagem pela Indonésia foi intensa, com muitas informações e histórias para contar!

Como já não iriamos  para as Filipinas a única alternativa seria continuar a viagem pela Indonésia. Com a nossa fuga da Micronésia (meio do caminho para as Filipinas) por causa da formação de mais dois tufões, resolvemos voltar para a Papua Nova Guiné, para uma cidade chamada Vanimo, fronteira com Jayapura na Indonésia. Sabíamos que para entrar na Indonésia precisaríamos de um visto (que poderia ser tirado na embaixada da Indonésia em Vanimo) e do CAIT, um tipo de visto para o barco poder navegar em águas indonésias. O CAIT seria o grande problema porque só é possível consegui-lo com agentes que trabalham em Jacarta ou Bali. Teríamos que ter acesso a internet para enviar a documentação necessária além de ter que esperar por até um mês para o documento ficar pronto.

Fomos na embaixada em Vanimo e explicamos a nossa situação ao cônsul que nos atendeu muito bem. Em Vanimo, não conseguimos achar acesso a internet, então não poderíamos dar entrada no CAIT. O cônsul entendeu que a situação foi uma emergência e nos deu o visto com a explicação de que fomos atendidos por esse motivo. Ficamos uns três dias em Vanimo e assim que o visto saiu, zarpamos para Jayapura. Umas 35 milhas que foram feitas com os motores, zero vento novamente.

Assim que chegamos em Jayapura não encontramos um fundeio com menos de 35 metros de profundidade! Na guarda costeira, vi que havia um veleiro de uns 40’ encostado a contra bordo de um barco da marinha. Começei a chama-los pelo VHF para pedir orientação de onde fundear. Ninguém respondeu. Sem alternativa, fundeamos em 35 metros de profundidade mesmo, com 120 metros de corrente. Logo que terminamos a operação, fomos chamados pela guarda costeira para que desembarcássemos e fazermos os papéis de entrada. Nem nos deixaram respirar direito!

Fomos atendidos pelo Lucky. Ele era o único que falava um pouco de Inglês na guarda costeira, e foi muito simpático nos atendendo. Mas quando dissemos que não tínhamos o CAIT, foi um alvoroço. Explicamos tudo novamente, que passamos por um tufão na Micronésia, que entramos na Indonésia devido a uma emergência. Não demos entrada no CAIT em Vanimo porque não havia acesso a internet. Sabem o que queriam que fizéssemos? Que déssemos a entrada no CAIT em Jayapura e depois voltássemos para Vanimo e ficássemos esperando lá, até que o bendito saísse. Puta merda! Nesse momento, tudo que tínhamos para fazer no barco e estávamos enrolando, serviu de desculpa para não sairmos do porto. Estávamos cheios de avarias causadas pelo tufão. Precisávamos comprar peças, coisa que não poderíamos fazer em Vanimo (que não têm nada). Conseguimos a autorização do capitão dos Portos para ficarmos esperando em Jayapura até que o CAIT saísse. Alívio, mas só o começo da tortura. Fomos a alfândega, e depois de preencher trezentas folhas com as mesmas informações, foram ao barco fazerem uma vistoria. Normal e tranquilo. Depois seguimos para a imigração, o lugar onde pensávamos ser mais fácil, foi o que mais nos arranjaram confusão. Mesmo com o visto não queriam deixar que entrássemos no país porque não tínhamos o CAIT. Nem quiseram saber se tínhamos uma emergência, nos mandam embora, pronto e acabou. Fora o descaso de nos fazerem esperar por mais de quatro horas. Explicamos, explicamos, e quando falei que entraria em contato com a embaixada Italiana, a coisa toda se resolveu mas ao invés de nos darem 60 dias de visto, que seria o nosso direito, só nos deram 30 dias.

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Fausto enrolado no enrolador. Foto: Guta Favarato 

Quando fomos tirar o visto em Vanimo na embaixada Indonésia, perguntamos ao cônsul qual passaporte seria melhor para entrar no país, o Italiano ou o Brasileiro, só por questão de saber se teríamos alguma vantagem entre um ou outro. Ele nos respondeu que não havia distinção entre os dois mas que seria melhor para nós entrarmos com o Italiano. Na hora não entendemos o porquê, só um mês depois fomos descobrir…

Demos a entrada no CAIT com a Lytha, da PT.Kartasa Jaya (cait@indo.net.id), conhecida pela rapidez em conseguir o documento. Os outros agentes demorariam até três meses para entregarem o documento, com a Lytha, no máximo uma semana. A Lytha nos atendeu com simpatia , mas nos disse que infelizmente não poderia conseguir o CAIT em menos de um mês, como chegamos perto do Natal e ano novo, os ministros estavam fora de seus escritórios. O CAIT precisa ser assinado por três ministros: Turismo, um ministério de assuntos estrangeiros (pelo que entendi) e do transporte. Bom, então vamos esperar um mês! Mas o nosso visto pessoal (válido por três meses já estava “correndo”).

O funcionário da guarda costeira começou a arranjar um monte de probleminhas. Disse que a marinha queria saber quais as avarias que tivemos no barco, queriam ver fotos. Beleza, podem vir tirar fotos, e foram! Dias depois, mandaram a gente escrever uma carta explicando o que aconteceu conosco (com a localização exata de onde pegamos o tufão), que descrevêssemos as avarias do barco e em quanto tempo consertaríamos cada uma. Nisso todos os dias nos ligavam perguntando se o CAIT já estava pronto.  Passei um e-mail a Lytha explicando o assédio e ela nos enviou um CAIT temporário, dois ministros já haviam assinado, só faltava o ministro dos transportes. Esse CAIT provisório, seria o suficiente para que nos deixassem em paz. Na verdade o funcionário da guarda só nos deu sossego porque estava com o casamento se aproximando e ficava menos tempo no trabalho. Mas sempre que se lembrava de nós, nos dava uma ligadinha cobrando.

Nesse meio tempo chegou o Sebastian e a Sandra, os Argentinos, com o mesmo problema que nós, mas já havíamos avisado da chegada deles, e não tiveram tanta dor de cabeça. Inclusive na imigração, eles deram entrada e conseguiram os 60 dias de visto. Não falaram que haviam chegado de veleiro. Foram mais espertos do que nós, por sermos sempre “certinhos”  nos ferramos.

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Foto: Guta Favarato

Como o veleiro deles estava com um problema no guincho, acabaram encostando em nosso contra bordo, mas foi só entrar um ventinho que fomos os dois embora. O fundo além de profundo era uma lage. Ou seja, estávamos fundeados na camada de sujeira que havia. Quando levantamos a âncora foi que vimos a quantidade de sacolas plásticas e outras porcarias que havia no fundo. Lixo, esgoto, tudo ia para o mar. O capitão dos portos liberou, e o Sebastian foi ficar também a contra bordo do barco da guarda Costeira, junto com o Robin um canadense gente boa, velejador em solitário.

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Foto: Guta Favarato
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Foto: Guta Favarato

O tempo foi passando, fomos fazendo os consertos que precisávamos fazer. Passou o Natal, o ano novo e nada do CAIT.

Infelizmente houve uma queda de avião no mar Indonésio e para o nosso azar, o ministro dos transportes trabalhou nas buscas (só se falava nisso na TV local), ou seja, o nosso CAIT não tinha previsão de sair.

Enquanto estávamos em Jayapura e com o problema para renovar o visto, eis que para nossa infelicidade surge na mídia brasileira e indonésia, o caso do brasileiro condenado a morte por tráfico de drogas. Muito se discutiu nas redes sociais. Até eu cai na furada de “bater boca” com pessoas com opiniões tão imbecís.

A Indonésia e pelo que li, a Malásia também, têm pena de morte para tráfico de drogas. O brasileiro foi pego traficando. Depois de todas as apelações possíveis e com provas inquestionáveis foi marcada a data da execução. Acho que a presidenta Dilma ter ligado para o presidente indonésio Joko Widodo pedindo clemência é o papél dela fazê-lo. Agora, após o pedido ser negado, o nosso governo dizer que estudava formas de retaliação a Indonésia foi o fim da picada.   Total falta de respeito as regras do país. No mesmo dia que o traficante foi executado recebemos uma visita surpresa de dois oficiais da alfândega, ambos a paisana. E antes de conseguirmos o check out de Jayapura, nosso barco foi inspecionado mais uma vez (três no total).

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Todos somos avisados sobre a pena de morte por tráfico de drogas. Foto: Guta Favarato

 

O último funcionário da Alfândega que foi nos inspecionar, falava um pouco de inglês, era filho de um indonésio com uma australiana. Esse cara nos disse que algumas pessoas “não religiosas” são contra a pena de morte. O porquê de “não religiosas”? porque lá, em  praticamente todas religiões (são muitas), eles são sim a favor. Traficante = diabo = morte. Então, o diabo têm que ser eliminado. Tudo que ele traz é a destruição e a infelicidade das famílias. Com relação a isso as religiões se entendem.  Como sempre existem opiniões contrárias,  o que o governo indonésio fez para pelo menos “abafá-las”?! Uma equipe de jornalistas indonésios foram ao Brasil na época da copa do mundo. Filmaram crianças assaltando adultos nas ruas, arrastões nas praias do Rio de Janeiro,  ruas cheias de craqueiros, bailes funk com jovens fazendo um pouco de tudo, enfim, filmaram tudo quanto é merda que existe no Brasil e fizeram uma reportagem especial que foi ar ar em rede nacional, pelo menos foi o que esse rapaz nos disse. Mostraram para a população indonésia um país dominado (verdade) e que está sendo destruído pelas drogas (e eu acrescentaria a corrupção também). Que maravilha! O Brasil sendo exemplo para outros países, um péssimo exemplo. Sem pestanejar a maioria da população vai continuar sendo a favor da pena de morte. 

Falou-se em retaliação, surgem imbecis nas redes sociais falando em guerra. Invasão a Indonésia. Não tô de sacanagem não. Um idiota comentou isso e logo em seguida contei mais de cinquenta pessoas concordando com a sugestão do sujeito inconsequente.  Essas pessoas desinformadas, não sabem que existem vários tipos de retaliação, a comercial por exemplo e logo vão falando em guerra. Mal sabem eles que caso houvesse uma, o Brasil perderia feio viu?! Pelo que vimos por lá, o presidente é eleito pela população mas administração é praticamente militar. O sonho de um jovem indonésio?! Entrar para a academia militar. Até programas de TV com  apresentadores fardados eu assisti.  Ser um militar é coisa séria. Ele faz a escolha de defender o país e praticamente não têm vida social. Não podem beber bebidas alcoólicas, não podem entrar em barzinhos (não vimos nenhum), não podem entrar boates, em prostíbulos ( também não vimos mas devia ter né hehehe!?). É a lei. E eles são fiscalizados por policiais a paisana, do tipo que adorariam “fritar” um militar, se é que me entendem.  A Indonésia têm um  total de 13.300 ilhas habitadas e a quarta maior população mundial. Um governo que investe bilhões no setor bélico e que está doido para ser cutucado com vara curta.

Assisti em um noticiário local, barcos de pesca enormes sendo explodidos e depois afundando. Perguntei um oficial amigo do que se tratava e ele respondeu que o governo Indonésio cansou de conversa fiada com os países vizinhos que não estavam respeitando os limites das águas indonésias para pesca. Agora se um barco da Malásia, Filipinas, Japão e qualquer outro for pego pescando em território indonésio, os pescadores são presos e só liberados após o pagamento de fiança, os barcos explodidos e afundados. O governo da Malásia se mostrou indignado e também falou em retaliação. A resposta dos indonésios: Cansamos de sermos desrespeitados. E se quiserem nos retaliar, seja de qual forma for, podem vir que estamos preparados. O governo da Malásia até aquele momento não se pronunciou mais…  A briga por comida já começou pelas bandas de lá.

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Observem o tamanho dos peixinhos salgados… Foto: Guta Favarato
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Micro camarões. Foto: Guta Favarato
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Como podem pescá-los tão pequenos? Foto: Guta Favarato

O nosso CAIT não saia, e o visto que têm que ser renovado mensalmente estava para vencer. Mais problemas a vista. A comunicação era péssima, as atendentes falavam quase nada de inglês e o “chefe” que falava muito bem, não estava com a mínima vontade de resolver o nosso caso. O cara me deixava esperando por horas. Uma moça pegou nossos passaportes e sumiu. Depois de duas horas esperando fui saber que ela havia saído para almoçar e só voltaria duas horas depois, ou seja, eu ficaria pelo menos mais duas horas esperando. Rapaz, na hora meu sangue ferveu literalmente, e comecei a bater na bancada pedindo meu passaporte de volta.- Cadê meu passaporte? -Eu quero meu passaporte de volta porque daqui vou direto na embaixada! Palavra mágica: Embaixada! Apareceu gente de tudo quanto é canto e nossos passaportes haviam sumido. A menina que os pegou não atendia ao telefone. Enfim, tive que esperar a VACA, voltar do almoço. E o pior, ela não sabia onde estavam os passaportes! Chegou a insinuar que eu não havia entregado nada a ela. Olha, eu cheguei a quicar de raiva! Só não voei no pescoço da criatura porque mais esperta, ela pocou fora. Depois de respirar fundo contando até 1000, pedi para falar com o chefe novamente, que muito a contra gosto (o cara fazia questão de demostrar má vontade) veio escutar-me e acabaram encontrando os passaportes. O infeliz não queria de jeito nenhum renová-los sem o CAIT (mesmo eu mostrando o provisório) e nos mandou embora da Indonésia novamente. Bem, o que me recordo depois do “fora” foi que mandei o cara pra tudo quanto era lugar, em português é claro, e em inglês disse que conversaria com o Cônsul e com o capitão do Portos porque esse sujeito estava passando por cima de duas autoridades que eu acreditava serem superiores a ele. Anotei o nome do cara na frente dele, tirei uma foto (o que era proibido), fiz uma cena danada. Quando estava prestes a ir embora, o “chefe” me chamou de volta e disse que para eu renovar o visto precisaria de um novo documento, a SPONSOR LETTER, uma carta de algum agente se responsabilizando por nós, enquanto estivéssemos em território Indonésio. PALHAÇADA! Tipo assim, cada hora eles inventavam alguma coisa. Enviei um e-mail a nossa agente perguntando sobre a sponsor letter. Ela não entendia porquê deles não renovarem o visto, e disse que talvez não aceitassem a sponsor letter no nome dela e sim de algum agente local, nisso ela já me avisou que os locais seriam bem mais caros. A agente Lytha era muito gente boa, e nos mandou no mesmo dia a carta, caso eles não aceitassem, ela não nos cobraria. Felizmente a carta foi aceita e depois de quatro dias renovaram o nosso visto, errado! Perdemos quatro dias em um mês de visto. Pode parecer pouco mas pelas longas distâncias a serem percorridas em toda Indonésia, quatro dias era muita coisa. Mas daí, desistimos de tentar consertar.

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Foto: Guta Favarato

Continua…

Guta
www.gurucat.com.br

Texto, fotos e vídeos reproduzidos pela SailBrasil Vida de Cruzeiro com autorização dos autores.

Relato da Refeno 2014 no Vento Real – Parte II

As águas azuis

Acordei antes das 07h00. O enjoo ainda me atormentava. Ao sair da cabine vi o Grajaú ao longe, em nossa popa. Olhei para o Sergio e pensamos a mesma coisa: ele está escoltando o fim da fila. Assumi o posto do Sergio, que desceu e foi ao radio:

– Grajaú, copia Vento Real?
– Afirmativo, prossiga.
– Grajaú, vocês podem nos informar se há algum veleiro cinco milhas a nossa frente?

O Capitão perguntava isso porque havia dúvida na interpretação de uma imagem radar, se era uma nuvem ou um navio. O operador do rádio do navio pediu que esperássemos e, após alguns instantes, respondeu:

– Vento Real, a cinco milhas não há nenhum… mas há dois veleiros num raio de oito milhas a sua frente.

Comentei com o Sergio que não estávamos tão atrás. Foi então que veio uma informação que era absolutamente inesperada:

– Apenas para informação – continuou o operador de rádio do Grajaú – vocês não são os últimos. Há mais dois veleiros atrás de vocês.

cusco-logo-newUAU!

Ao passar a bóia de Recife nós estávamos tão em último, mas tão em último, que era simplesmente inimaginável temos ultrapassado um outro veleiro. Dois, então?! A estratégia de manter o VMG = VM estava dando certo. A noite haviam barcos arribando ou orçando e com isso eles se afastavam de nós. Nossa navegação estava excelente… pena não temros largado na bico de proa ou, melhor ainda, na RGS!

Com o ânimo revigorado, continuamos no nosso caminho. Média de 5,4 nós. Lá pela hora do almoço meu enjoo passou. Enjoar não me é comum. Acontece mais quando eu não durmo direito, como vinha sendo o caso. Ao nosso redor não víamos mais nenhum barco, mas graças ao Grajaú sabíamos que não éramos os útlimos. João Pessoa ficava para trás.

Chamei o Bepaluhê no rádio, que me passou sua posição. Para meu espanto estava a apenas oito milhas de nós. A nossa frente, confirmados, havia ele e o JR01. A popa era a incognita, mas apostávamos nossas fichas que um daqueles barcos era o Jamaica III.

Pela primeira vez eu vi a tal água azul. Longe dos nutrientes do continente, a água do oceano fica mais pobre em partículas em suspensão. Perde o tom esverdeado e ganha uma cor azul de encher os olhos, difícil de comparar com qualquer outra coisa. A crista das ondas que arrebentam por causa do vento ficam da cor da pedra água marinha (talvez por isso o nome). Nem preciso dizer como isso é bonito.

No meio da tarde os golfinhos vieram nos fazer a primeira visita, sendo um deles filhote. Esses carinhas sempre nos deixam felizes.

O Capitão fez café. Mas com aquele joga joga do mar, o bule caiu e derramou o líquido todo dentro de nossa geladeira. Como ele é um homem de fibra, fez outro. Mas o barco também é guerreiro e o fez derrubar tudo de novo. Novo bule foi feito e alguns de nós nos servimos. Antes de eu pegar minha xícara, fui ao banheiro e ao sair tive meu primeiro momento matrix: voei e cai em cima da pia, derrubando quem? Sim, o café… as coisas da geladeria viraram uma mistura pouco amistosa. A viagem ficaria um poquinho mais longa.

Anoiteceu.

Coloquei Bob Dylan para tocar, sem parar, uma atrás da outra. Ainda em Santos eu me imaginava na proa, sentado, ouvindo Like a Roling Stone quando avistasse, enfim, Noronha. Mas isso ainda não seria no domingo.

Começamos a nos aproximar de Natal e o radar acusou alguns navios. Todos passaram sem maiores perigos. No escuro víamos alguns mastros, ao longe, um pouco mais a ré e à barla.

No rádio VHF o Grajaú deu lugar ao outro navio escolta da Marinha, o Triunfo – ou melhor, o REBOCADOR DE ALTO MAR TRIUNFO, pois seu nome sempre era chamado no VHF com certa pompa e circunstância. Entre nós ele logo ganhou um apelido carinhoso: “Chama lá o “Triunfão” e passa nossa posição!“.

Numa dessas vezes eu o chamei e perguntei quais eram os últimos barcos da regata. Como resposta, recebi um simpático: “Aguarde o final da competição“.

À meia noite acordei o o Alan. Dessa vez, porém, o Capitão Sergio foi mais rápido e deitou no beliche de sota. Eu deitei do jeito que deu no de barla, lá no “segundo andar” e peguei no sono. Menos de cinco minutos depois vivi meu segundo momento matrix: a cama veio de sopetão para baixo e, depois e covardemente, para o lado. O tombo foi feio e deixou claro que eu não iria dormir. Isso foi um pouco desesperador. Eu estava muito cansado. Uma opção seria ir para a cama de proa, mas nós a havíamos convertido em armário… paciência. Fomos eu e Dylan encontrar o Alan lá fora, onde ficamos dessa vez até o sol nascer. Como consolo restava o fato de saber (ou esperar) que não haveria outro “turno da noite”. No dia seguinte chegaríamos em Noronha.

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Like a roling stone…

Houve um momento muito interessante nesse terceiro e último dia a bordo: quando nos demos conta de que Natal estava mais distante do que Noronha. A capital do Rio Grande do Norte distava cento e vinte milhas de onde estávamos, ao passo que Noronha “apenas” noventa. Foi meio estranho imaginar que estava tão longe de terra, algo equivalente a distância entre Guarujá e Paraty. Além disso a profundidade onde navegávamos era de míseros quatro mil metros! Esses números nos fazem pensar em terra. Mas lá, no mar, a coisa soa tão natural que até chegam a não dizer nada.

O “Triunfão” estava silencioso. Chamou logo cedo, mas a propagação estava ruim e não copiou nossa resposta. Antes do almoço golfinhos roteadores fizeram um show na nossa popa. As aves marinhas passavam para lá e para cá. Na madrugada uma delas tentou pousar em nosso bimini. Para ajudá-la eu coloquei a lanterna em sua direção, mas acho que não deu muito certo pois ela se estatelou no mar…

Ao meio dia vimos algo inesperado: velas ao vento, a nossa popa! Veleiro a vista!!!

O vento baixou. Dos 25 nós da madrugada “despencou” para 15, depois 10, depois 8… Ora, isso não se faz!!! Interessante como nossos parâmetros mudam. Em Ubatuba o ventão da madrugada seria convidado a se retirar. Aqui era desejado com ardor. Tiramos o rizo da vela mestra.

As velas do outro veleiro mantiveram-se a nossa ré, à boreste. Sempre na mesma marcação, o que indicava que a velocidade era a mesma. Almoçamos e fomos vistados por baleias piloto. Pena que a câmera nunca está a mão nessas horas.

Curiosos por saber quem estava a nossa ré – no visual e fora dele – bolamos estratégias. O Capitão Sergio pensou em fingir ser outro barco, o USS Pernambuco, da Marinha dos EUA. Acho que não enganaríamos o valente “Rebocador de Alto Mar Trinfo” por muito tempo.

No fim da tarde, então, algo miraculoso aconteceu: as velas que nos seguiam no horizonte começaram a ganhar uma velocidade sobrenatural. A medida que o vento caia, mais elas andavam. Desceram no vento e terminaram bem a nossa frente, no rumo direto da Sapata. Mais do que isso: começaram a abrir distância! Quanto menos vento havia, mais eles andavam. Mistérios… mistérios… mistérios…

Não vimos Noronha chegar durante o dia. A 25 milhas – quando em geral se começa a ver terra – não se via nada, nem as nuvens que ficam por cima das ilhas oceânicas.

Anoiteceu. O vento subiu para quinze nós e o veleiro superandador a nossa frente começou a andar menos. Manteve-se a uma milha de nossa proa. Eu estava no leme e me guiava usando sua luz de mastro. Eram 20h30 quando um clarão se fez ver no horizonte. Terra a vista. Foi um momento sereno, quase natural – muito diferente do que eu pensei que fosse. E eu não estava ouvindo Like a roling stone

Pouco depois mudamos para o canal 77 e ouvimos o valeiro misterioso anunciar seu nome: “CR, CR, aqui Jamaica III, Montamos a Ponta da Sapata“. Hum, era ele, o Jamaica III!

Quando montamos a Sapata entreguei o leme ao Capitão Sergio. A honra de chegar em Noronha deveria ser dele. Afinal foi ele que em solitário saiu da Boreal em uma manhã chuvosa de sábado e levou o barco sozinho até Recife. Foi ele quem gastou nove anos de sua vida fazendo aquele barco. E fez tudo isso como se fosse a coisa mais normal do mundo. O Sergio é um homem verdadeiramente do mar e merece minha mais profunda admiração.

Eu imaginava Noronha como uma ilha monstruosa, saindo do mar e indo raivosa em direção ao céu, ganhando as alturas. Mas não. Ao chegar ali o que encontrei foi uma “pedrinha” tão bela, quanto frágil. Ilha que é quase ilhota. Delicada. Pequenina. Baixinha. Uma sillhueta de Niemayer no meio da escuridão do deserto do oceano.

Pelo rádio acompanhamos a chegada do Jamaica III e soubemos que um veleiro que estava atrás de nós desistiu e ligou o motor. O Tartaruga seria do jamaica III e foi melhor ter sido assim, para alegria do nosso Capitão que relutava em aceitar a honraria.

Menos de meia hora depois de montarmos a Ponta da Sapata ouvimos no canal 77:

– Veleiro que se aproxima da CR, identifique-se.
– CR, aqui Vento Real – respondeu o Alan.
– Vento Real, você consegue ver a linha de chegada?
– Afirmativo.
– Vento Real, ilumine suas velas.

Houve um breve silêncio e então as palavras que eu nunca irei esquecer:

– Vento Real, bem vindo a Fernando de Noronha.

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Fotos: Juca Andrade – Cusco Baldoso Escola de Vela Oceânica

Juca Andra
Veleiro Vento Real
http://veleirobaldoso.blogspot.com.br/

Texto, fotos e vídeos reproduzidos pela SailBrasil Vida de Cruzeiro com autorização dos autores.

Relato Refeno 2014 no Vento Real – Parte I

Preparação e largada

Graças ao meu amigo Alan Trimboli, dono do Meltemi, consegui participar esse ano da Refeno 2014. Ele e sua esposa Leila seriam tripulantes do Vento Real, um Multichine 31 construído ao longo de nove anos pelo Sergio. O Vento Real, o Meltemi e o Malagô já foram vizinhos na Boreal e eu sabia que em tese haveria mais uma vaga. Não sou muito de pedir nada aos outros, mas com a impossibilidade de o Caulimaran ir para a regata e diante do fato de eu estar com simplesmente tudo pronto, não me perdoaria se me conformasse com aquela situação: trabalhar ao invés de ir para Noronha! O “não” eu já tinha, então pior não poderia ficar.

A resposta, porém, demorou e meu humor foi ficando cada vez mais azedo. É que o Sergio estava indo de Aracaju para Recife (sim, ele entrou sozinho e a noite naquela barra pavorosa) e naturalmente o Alan precisaria conversar com ele antes. Enquanto isso o telefone era apenas silêncio. Passado o final de semana e a segunda-feira a resposta veio apenas na terça, 23/09! “- Juquinha, você queria muito ir para Noronha? Então… pode ir!!!”. Sim, depois de tantas tentativas frustradas eu estava na Refeno!

Embarquei para Recife no dia 25/09 e às 10h30 já estava no Cabanga, a bordo do Vento Real.

O clima era quente e muito legal. Um clube com dezenas de barcos respirando vela. Gente de todo lugar. Amigos novos e velhos por todo o lado. O Alan e a Leila chegaram às 14h00 do mesmo dia.

Fizemos compras, abastecemos o barco de água e diesel e revisamos motor, velas e estaiamento. Passamos pelas etapas intermináveis de inspeção e liberação do barco pela Marinha. Na noite do dia 26/09 veio a primeira notícia complicada: por entender de regatas o mesmo que eu entendo de sânscrito arcaico, o Sergio nos inscreveu na categoria aberta. Ocorre que essa era a categoria que largaria por último, às 14h00 (a primeira largada seria 12h30, a segunda às 13h00, a terceira às 13h30 e finalmente a nossa) e isso não era sem motivo: ela trazia os veleiros mais rápidos: os trimarãs e monocascos acima de 50 pés (dentre eles o Caramiranga, nada menos do que o fita azul dessa edição). O Vento Real, por sua vez, era o menor da flotilha, com apenas 31 pés.

cusco-logo-newA Refeno costuma ser uma regata onde os ventos de través ou orça folgada imperam. Isso quer dizer que quanto maior a linha d’água do barco, mas vantagem competitiva (velocidade) ele tem. Assim competir para valer com trimarãs ou com veleiros com o dobro da nossa linha d’água era virtualmente impossível, ainda mais sem um critério de correção de tempo, como a RGS!

Ficamos um pouco atordoados (ninguém quer ser o último sem ter chances de lutar, nem que sejam chances meramente psicológicas) e tentamos mudar isso. O ideal teria sido nossa inscrição na categoria bico de proa, a primeira a largar. Mas a reunião de comandantes já havia acontecido e essa alteração não seria possível. Paciência. De qualquer forma eu estava cem por cento no lucro, pois não era nem para eu estar ali.

Por conta da maré saímos do clube às 09h00 do sábado, 27/09 e fomos para área de espera, onde fundeamos e… esperamos. Almoçamos às 11h30: bife com legumes, feito pela Leila. Uma novidade é que na hierarquia de bordo eu era o último, até por ser o recém chegado. Por conta disso, lavei a louça. E eu ia reclamar?

A largada era dividida em fases. Ao meio dia as classes bico de proa e aço (onde o maravilhoso Bepaluhê estava inscrito) pôde entrar na área de check. Todos os barcos, então, passavam por uma bóia, próximo à platéia e ao narrador, que apresentava os barcos e fazia comentários. Feito esse check os barcos recuavam e esperavam o sinal de cinco minutos para a largada (um pouco antes do Marco Zero do Recife), depois de quatro, um e, enfim, a partida. Esse último tiro era também o sinal para a próxima classe entrar na área de check.

A área de espera foi esvaziando. Um veleiro desistiu ali mesmo, por problemas com o motor. Às 13h30 partimos para fazer nosso check. Quando o narrador apresentou nosso barco e a platéia aplaudiu nos sentimos um pouco pop stars da vela e menos a porcaria que de fato somos. Já participei de regatas antes, mas com narrador e platéia, essa foi a primeira vez e confesso que é bem legal.

No tiro de quatro minutos estávamos recuados da linha de largada, mas bem perto. O vento, porém, resolveu acabar e de vez! Isso porque minutos antes – e nas outras largadas – ele estava presente e acima de dez nós! A linha de chegada foi se aproximando, se aproximando, se aproximando… veio o tiro de um minuto e tanto nós quanto o veleiro Miss Carol estávamos escapados, ele um pouco mais a nossa ré. Mas não dava para fazer nada, pois já estávamos em regata e não poderíamos ligar o motor.

O tiro de largada foi dado conosco escapados mais de trezentos metros. Por ironia o vento voltou fraquinho. O Camiranga veio lá do fundo, desfraldando uma code zero maravilhosa mostrando como é que se faz. Um tripulante do Miss Carol veio nos parabenizar pela “bela largada”. Eu achei que ele estava sendo irônico e até fiquei meio bravo, mas depois descobri que ele simplesmente não sabia o que estava dizendo. A CR logo nos esclareceu, via rádio VHF:

“- Os veleiros Vento Real e Miss Carol largaram escapados e terão trinta minutos de acréscimo no tempo de regata. Podem continuar a regata”.

Peguei o VHF e respondi: “- Vento Real ciente e de acordo”.

O que já estava difícil ficou ainda mais complicado…

A mesa de navegação do Vento Real.
A mesa de navegação do Vento Real.
Salão do Vento Real: dois carrinhos de supermercado desapareceram nos armários e havia espaço para mais coisas. Barcos do Cabinho são únicos!
Salão do Vento Real: dois carrinhos de supermercado desapareceram nos armários e havia espaço para mais coisas. Barcos do Cabinho são únicos!
Cozinha...
Cozinha…
... banheiro.
… banheiro.
O Marco Zero.
O Marco Zero.
O Capitão Sergio e o Alan discutindo os últimos detalhes da navegação.
O Capitão Sergio e o Alan discutindo os últimos detalhes da navegação.
Área de espera...
Área de espera…
... Telémaco II, veleiro argentino.
… Telémaco II, veleiro argentino.
A largada estava chegando.
A largada estava chegando.
O almoço também!
O almoço também!
Pessoas assistindo a largada no centro do Recife.
Pessoas assistindo a largada no centro do Recife.
O Marco Zero.
O Marco Zero.
Tripulação pop star!
Tripulação pop star!
E o vento...
E o vento…
... se foi.
… se foi.
Largamos escapados...
Largamos escapados…
... e ganhamos 30 minutos de penalização...
… e ganhamos 30 minutos de penalização…
...assim como o Miss Carol.
…assim como o Miss Carol.

 

A bóia de Boa Viagem

Esse ano houve uma alteração no percurso da Refeno, o que segundo a organização a reaproxima de suas origens. Antes de seguir para Noronha os barcos tiveram que voltar algumas milhas indo até uma bóia que fica entre a praia de Boa Viagem e o bairro Brasília Teimosa. Duvido que alguém tenha realmente gostado disso, pois serviu apenas para atrasar todo mundo. Mas regras são regras.

Para nós chegar até essa bóia não foi fácil. Com pouco vento os veleiros mais rápidos logo nos deixaram para trás e ao chegamos no final do molhe do porto o duelo era apenas entre o Jamaica III e a gente. Aquele barco argentino era um bocadinho maior, mas andava muito parecido conosco. Lembrei que poderíamos brigar pelo Troféu Tartaruga, já que estávamos em penúltimo e bastava andar melhor do que o Jamaica, o que naquela altura não parecia tão complicado assim. O Capitão não gostou nada da ideia. Não queria ser uma tartaruga…

A verdade é que nem o tartaruga seria fácil de ser conquistado. A medida que manobrávamos o barco apenas à vela, nossos problemas aumentaram. Descobrimos que o Vento Real não tem ainda uma ergonomia adequada. O barco é novo (fevereiro de 2014) e foi pouco testado. As catracas não aceitam um giro completo das manicacas e a escota da genoa está instalada de forma incorreta e frágil. Dar um bordo era um parto – e um parto normal.

O vento na cara começou a aumentar. Então enfrentamos nosso primeiro pirajá – uma nuvem vinda do mar que trouxe ventos na casa dos 25 nós, fez crescer o mar e trouxe chuva bem forte. Bordo para cá, bordo para lá (uma luta para cá, outra para lá) e o Jamaica III nos passou e montou a bóia na nossa frente. Era o fim.

O moral baixou. O Capitão fez menção de desistir. Fingimos que não escutamos. Não era uma barla sota, mas uma regata de trezentas milhas. Muita coisa poderia acontecer, ainda que todas as chances estivessem contra nós.

Quando montamos a bóia, em último e com o Jamaica III lá na frente, a noite começou a cair. O vento uivava nos estais. O mar estava alto. Conversamos e decidimos que a melhor estratégia seria manter o barco inteiro e no melhor rumo direto para a Ponta da Sapata, nossa entrada em Noronha, com o máximo de regularidade na velocidade média, desde antes estimada em cinco nós. Era melhor andar com o VMG = Velocidade a cinco nós do que andar a sete nós e ter que fazer estripulias no rumo, percorrendo uma distância maior. Foi o que fizemos: 60 graus na agulha o tempo todo e com a obsessão de manter a velocidade nos cinco nós.

Estava frio. A noite caiu de vez, mas antes colocamos a mestra no primeiro rizo. O barco ficou mais dócil, mas ainda atravessava. Demos o segundo rizo e o barco voltou a ficar “na mão”. A flotilha estava lá na frente. Éramos apenas nós e o outro pirajá que nos encontrou no través da cidade de Paulista, ainda em Pernambuco. Já estávamos bem rizados de mestra, de forma que apenas enrolar um pouco a genoa foi suficiente. Jantamos cachorros quentes, feitos pela Leila – um primor!

Às 22h00 e o Alan e a Leila foram deitar. Eu e o Sergio ficamos no leme, ele levando e eu olhando para o horizonte. As ondas de través faziam o barco jogar de forma cadenciada: quatro “bundadinhas” fracas, depois uma bem forte e assim sucessivamente.

Enjoei. Mas não conseguia vomitar. Fiquei apenas com aquela sensação horrível. Não quis tomar nenhum remédio, pois fazer turno de leme com sono não era a coisa mais sábia a se fazer.

No rádio, então, começou um pandemônio. Éramos a essa altura acompanhados por um navio patrulha da Marinha, o Grajaú – P-40, que a toda hora pedia posições de barcos e informações sobre veleiros que não estavam ao seu alcance. Pelo que ouvíamos o mundo estava acabando para os trimarãs. Um sem mastro, outro sem leme, outro com problemas de “locomoção”. Desistências em série, aos montes. Olhamos em volta e víamos apenas luzes de mastro ao longe. No radar os veleiros começavam a se distanciar. Aquele clima nos indicava que a coisa não estava fácil para ninguém.

O Fandango chamava o Grajaú, mas apenas nós do Vento Real e o Bepaluhê conseguíamos ouvi-lo e o contestávamos. Era bom ouvir a voz do Paulo, do Bepaluhê. Acabei fazendo uma ponte entre o Fandango e o Grajaú: um dos cascos fazia água. Eles controlaram mas desistiam da regata. Todos a bordo estavam bem. Glup!

O enjoo me consumia. À meia noite chamei o Alan, que assumiu o leme. Antes ele me deu um plasil. Deitei um pouco mas não conseguia ficar dentro da cabine, que jogava muito. Sai e deitei lá fora. A costa ia ficando cada vez mais ao longe. Nosso Capitão, Sergio, deitou e dormiu.

Às 04h00 o Sergio rendeu o Alan, acordado por um tombo do tipo matrix . Um pouco melhor do enjoo e muito cansado, fui dormir também. Estávamos no través de João Pessoa e dava para ver claramente que a partir dali o clarão da costa deixava de ser paralelo ao nosso rumo, fazendo a “curva” para dentro. O Capitão tocou o barco sozinho até o amanhecer.

P-40 - NPa Grajaú, um de nossos anjos da guarda.
P-40 – NPa Grajaú, um de nossos anjos da guarda.

(continua…)

Fotos: Juca Andrade – Cusco Baldoso Escola de Vela Oceânica

Juca Andrade
Veleiro Vento Real
http://veleirobaldoso.blogspot.com.br/

Texto, fotos e vídeos reproduzidos pela SailBrasil Vida de Cruzeiro com autorização dos autores.

Velejando novamente, Granadinas, sul do Caribe!

Finalmente mastro colocado, vamos continuar nossa viagem com apenas quatro meses de atraso no plano inicial…

A questão agora era o que fazer, pois a temporada de cruzeiro no Caribe, que vai de dezembro a maio está chegando ao fim. Resolvemos conhecer as Granadinas, que é o filé do Caribe, e depois ir para a Venezuela passar a temporada dos furacões.
Assim, dia 21 de abril, às 17 horas, saímos de Trinidad rumo à Grenada, 80 milhas ao norte. Saímos à tardinha para chegarmos de dia, com uma previsão de mar de 2 metros e vento de 20 nós. Foi uma orça apertada, sendo que tivemos de arribar para continuar andando. Como foi a primeira velejada com o mastro novo, estávamos apreensivos e os turnos de 2 horas foram longos. Acabamos dormindo muito pouco mas felizmente não mareamos e conseguimos até comer um pouco. Acabamos levando 2 horas a mais que o previsto e chegamos em Grenada às 8 horas do dia 22.

Ficamos em Prickly Bay, defronte à Spice Marine, se é que se pode chamar aquilo de marina. Muito abandonada, banheiros péssimos e se paga US$1 por banho. Pelo menos a imigração e alfândega eram na mesma sala e foi relativamente fácil preencher o monte de formulários exigidos, além da taxa de US$ 27,00. Passamos num mercadinho para comprar gelo e trocar dinheiro pois a moeda aqui é o East Caribean Dolar, EC$, mais ou menos equivalente ao Real. Além do banho pagamos também para deixar o lixo, 7 EC por semana…

Depois de nos ambientarmos, fomos dormir um merecido sono. No dia seguinte fomos de van para a capital, St. George. A cidade é uma gracinha, muito bem cuidada. Fomos ao banco, à internet e depois compramos um chip para o celular. A vantagem da tecnologia GSM é esta, por um preço relativamente baixo vc tem celular pré-pago de qualquer lugar, apenas o numero muda. De qualquer modo agora temos comunicação com o Brasil.

Pegamos vários dias de chuva, o que impedia muitos passeios, caminhávamos no fim de tarde e dormíamos bastante. Dia 28 nos mudamos para o Lagoon, que fica em St. George, junto ao Iate Clube. Fica próximo de tudo na cidade mas não dá para tomar banho de mar pois a água é suja. Saímos com o barco para conhecer outras praias, como Grand Anse e Grand Mal onde acabamos ficando uma noite. Depois voltamos para St. George mas ficamos do lado de fora do porto, onde a água é limpa e é mais ventilado.

Voltamos para o Lagoon para abastecer o barco para irmos para a próxima ilha, Carriacou, quando comecei a sentir dor nas costas. De repente, quando estava passando do dingue para o barco me deu uma fisgada nas costas que me deixou impossibilitado de me mover. Mal consegui deitar no cockpit. A dor era insuportável.

Acabei passando a noite deitado ali mesmo com a Cris me fazendo companhia dormindo embaixo do doghouse. O pior é que chovia prá caramba e a Cris teve que fazer uma cabana para me proteger da chuva e vento. Foram dois dias com Voltaren injetável, Cataflan Gel e Profenid. Pedimos ajuda ao Iate Clube para colocar o barco no pier. No segundo dia consegui entrar no barco e deitar na sala. Felizmente a dor começou a ceder e no terceiro dia estava bem melhor. Fui à uma clínica fazer uma consulta, raio X, etc e o médico diagnosticou distensão muscular e mandou continuar tomando Voltaren comprimido. Êta distensão doída!

Abastecemos o barco e dia 8, sábado, saímos para Carriacou. Navegada fácil, 30 milhas. Ancoramos em Tyrrel Bay. Lugar legal para ancorar mas sem nenhum atrativo especial. No dia seguinte fomos à Hillsborough fazer a documentação de saída pois íamos para Union Island, que faz parte de S. Vincent. No caminho paramos na Sandy Island, uma amostra do Caribe que esperávamos. Areia branquíssima, água em vários tons de azul e verde, piscinas naturais, uma beleza!

Sandy Island, Carriacou
Sandy Island, Carriacou | Foto: Mario do veleiro Redboy

Hillsborough é uma droga, fizemos a documentação e saimos rapidinho para Clifton Harbor, Union. Duas horas de motor pois o vento estava na cara e entramos no porto que fica protegido do mar por uma barreira de coral. A ancoragem é pequena para o número de barcos ancorados e então resolvemos pegar uma poita para ficarmos mais perto do Iate Clube. Dê-lhe burocracia para fazer a entrada no novo país. Pelo menos a alfândega e imigração ficam juntas no aeroporto, menos de 1 km do trapiche. Dormimos duas noites lá e seguimos para Mayreau, que seria a nossa base para visitar Tobago Cays, pois achava complicado passar a noite lá. Descemos em Mayreau e subimos o morro onde fica a única vila da ilha. De cima se tem uma vista fantástica de Tobago Cays. Tiramos várias fotos que acabaram se perdendo devido à um problema no disquete. No dia seguinte fomos finalmente conhecer o lugar que me fez vir ao Caribe. Rota no GPS, preparação psicológica para driblar recifes e lá vamos nós. No fim foi mais fácil do que pensava pois a entrada é sinalizada por duas balizas e a passagem entre as ilhas não é tão estreita como parecia na carta. Lá dentro é um deslumbramento. Se as Granadinas são o filé do Caribe, Tabago Cays é o mignon. Parafraseando o Cabinho, ir ao Caribe e não conhecer este lugar é como ir à Roma e não ver a Sophia Loren… De cara mudei de idéia sobre passar a noite lá pois é bem abrigado do mar, embora não do vento. Passamos três noites lá, mergulhando todos os dias, ficando um pouco em cada ilha, deixando o tempo passar. Me arrependi de não ter ficado mais tempo lá…

Tobago Cays, vista da gaiúta da cozinha...
Tobago Cays, vista da gaiúta da cozinha… | Foto: Mario do veleiro Redboy
Tobago Cays, vista de uma das quatro ilhas que formam o arquipélago
Tobago Cays, vista de uma das quatro ilhas que formam o arquipélago | Foto: Mario do veleiro Redboy

Venezuela, Junho/2004

O mês de maio estava chegando ao fim e era hora de ir para a Venezuela. Planejei uma viagem em etapas curtas para não cansar muito, então as paradas seriam Carriacou, Grenada, Los Testigos, Isla Margarita e Puerto La Cruz. O maior trecho foi Grenada-Los Testigos, 90 milhas. Como queríamos chegar de dia, saímos à meia-noite. Foi a pior velejada até agora. Vento a favor mas mar muito ruim, desencontrado, com as ondas entrando pela alheta fazendo o barco balançar muito. Mas Los Testigos vale a pena. Água muito limpa, muito peixe, se ancora pertinho da praia, numa ligação entre duas ilhas que faz com que o mar quebre a apenas alguns metros da proa do barco. Pena que o tempo estava ficando curto pois a vontade era passar mais alguns dias lá. Mas tínhamos notícias de que as marinas estavam enchendo muito rápido em Puerto La Cruz e resolvemos seguir viagem.

Los Testigos, vista da ancoragem
Los Testigos, vista da ancoragem | Foto: Mario do veleiro Redboy

Em Isla Margarita, Porlmar, nem descemos do barco, achei a vista da cidade deprimente, com vários hotéis de luxo abandonados. Já teve a sua época de grandeza. Chegamos de tarde e saímos de madrugadinha. Amanheceu sem vento e com um mar liso. Foi uma motorada só até PLC. Estávamos preocupados com as notícias de pirataria na costa venezuelana o que nos fez ir direto, sem parar nas ilhas do caminho. Chegando em PLC fomos para a marina Maremares, onde já estavam nos aguardando pois avisei pela rádio antes. Ela fica no complexo El Morro, uma espécie de Brachuí gigante, com hoteis, shoppings, condomínios, marinas e muitos canais. A marina faz parte de um resort enorme, com spa, restaurantes, piscina com ondas artificiais etc etc. Êta sofrimento…

Vida difícil na marina Maremares, em Puerto La Cruz
Vida difícil na marina Maremares, em Puerto La Cruz | Foto: Mario do veleiro Redboy

Em final de junho devemos voltar para o Brasil. A Cris decidiu desembarcar em definitivo, por pressão das filhas, depois de mais de um ano a bordo.  Esta decisão foi para mim uma grande decepção. A ideia da ida ao Caribe só pôde ser concretizada depois do comprometimento dela em ir junto, pois sozinho já tinha resolvido que não iria. Até entendo que após a quebra do mastro ela tenha ficado ainda mais instável emocionalmente, mas de qualquer modo me deixou pendurado no pincel…

Como a vida continua, devo retornar para a Venezuela no final de novembro para providenciar o retorno do Redboy para o Brasil. O resto do Caribe, EUA e Europa ficam para uma próxima vez.

Mario Ramos
Veleiro Redboy
www.redboy.com.br

Texto, fotos e vídeos reproduzidos pela SailBrasil Vida de Cruzeiro com autorização dos autores.

Volta ao mundo no dedão

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Quando conheci o Polonês Michel e ele me disse que estava dando uma volta ao mundo de carona, não me surpreendi, já havia conhecido várias pessoas fazendo o mesmo, mas quando ele me disse que largou o curso de medicina no terceiro ano para viajar, fiquei impressionada. O curso de medicina é concorrido quem qualquer país do mundo né?

Michel disse que um dia, sentado na cadeira da faculdade pensou: O que eu estou fazendo aqui? Só tenho 23 anos. Vou me formar, trabalhar, construir um patrimônio, constituir uma família, para só depois dos 60 anos ou mais me aposentar e poder “curtir” a vida?! Porque não faço isso agora que estou novo?! Assim ele trancou a faculdade, vendeu o pouco que tinha e uma poupança guardada para ele desde criança para a faculdade (a mãe revoltada não ajudou em nada na sua “loucura”), e saiu de mochila nas costas para conhecer o mundo. Isso há três anos, e ele pretende ficar viajando por mais três. Conheceu toda a europa, américa latina (inclusive o Brasil de cabo a rabo), América central, Polinésia Francesa, Nova Zelândia, Salomões. Conosco foi até Kavieng na Papua Nova Guiné, com o objetivo de chegar a Austrália.

O Michel era um cara esperto, do tipo de aprende a língua local em meses. Falava inglês, espanhol, alemão, francês e inclusive o português. Aprendeu nos seis meses que passou pelo Brasil. Era simpático e prestativo.

– Michel, você gostou do Brasil?

– Amei Guta, ainda mais depois que descobri que ser Polonês no Brasil era o máximo!

– É mesmo, eu não sabia disso! Como assim?

– Todas as vezes que eu dizia ser polonês, as pessoas não sabiam onde ficava, então eu dizia que era a terra do Papa João Paulo II. Daí logo se recordavam (vocês brasileiros gostavam muito dele né?), então, tudo ficava mais fácil para mim.

Bobo nada!

Não pensem que ele têm alguém bancando sua “loucura”. Ele trabalha sempre que pode no que dá. Trabalhou em uma ONG no Panamá que precisava de um tradutor. Como garçom em restaurantes, colheu kiwis na temporada da Nova Zelândia e estava indo para a Austrália para tentar algum trabalho, pois a grana estava acabando. Em todos os lugares por onde passa, ele tenta trabalhar como voluntário em hospitais e postos de saúde. Pretende escrever um livro sobre essas experiências na área de saúde pública.

Antes de chegar em Gizo, o Michel participou de uma ação voluntária de dois veleiros Neo Zelandeses, um trabalho muito parecido com o que o Márcio do projeto Velejando com Deus faz no Brasil. Saíram da Nova Zelândia, e pegaram só “pauleira” até chegarem nas ilhas San Cristóbal, um grupo de ilhas pertencentes as Salomões, só que bem distantes da capital. Levaram muitas doações de roupas e remédios. Muitos remédios para verminoses e sarna. Doenças comuns por lá, principalmente entre as crianças. Apesar dos nativos terem remédios naturais para ambas doenças.

Em tudo quanto é lugar nas Salomões, vimos posters da princesa ou condessa (?) Kate e o príncipe Willians. Nos disseram que o ano passado, eles visitaram as Salomões e que foi um “furdunço” na cidade. De anos em anos a realeza Inglesa faz aparições pelo arquipêlago. O engraçado é que a Inglaterra, os “colonizadores” das Salomões, largaram aquele povo por lá a Deus dará. Não têm nenhuma organização de ajuda a população local. As organizações que ajudam, com serviços médicos, dentários (o maior problema) e outras coisas são da Austrália e da Nova Zelândia. Agora, vá falar mal da Inglaterra para ver no que dá!?

Michel nos contou que infelizmente estavam começando a diagnosticar casos de AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis no país. Como poucos sabem o que é uma camisinha, é questão de tempo para as novas gerações serem contaminadas. Apesar das escolas, muitas escolas, as professoras que são evangélicas ou freiras, se recusam a dar aulas de educação sexual. Não transar antes do casamento! Pronto e acabou. Essa é a lição ensinada.

Os casos de malária são cada vez mais raros, e uma curiosidade. Sabem o que mais mata turistas nas Salomões? Traumatismo craniano por queda de cocos. O ano passado, as únicas duas mortes de turistas nas ilhas foi por esse motivo.

Como trabalhou com esse grupo de ajuda, Michel conseguiu carona no navio de transporte local, de San Cristóbal para Gizo, onde o capitão não cobrou a passagem e ainda deixou que ele dormisse em sua cabine, se não, ele dormiria bem pertinho de vários porcos.

O povo dorme na parte de cima e  porcos na parte de baixo.
O povo dorme na parte de cima e porcos na parte de baixo.

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Em Gizo-Salomões ele foi pedir abrigo na igreja católica local. Da igreja, foi parar na casa das freiras, que moravam em uma ilha em frente a Gizo. Trocava trabalhos manuais (limpeza da caixa de água, conserto do painel solar, vazamento do telhado etc.…) por comida e cama. Pelo que nos contou, se quisesse ficaria por meses por lá, como tinha muitas histórias para contar, estava sendo tratado feito rei. Até carne de porco assado ele comeu! Iguaria que só os padres tinham direito. E eu fiquei com água na boca (já faz meses que não comemos carne de boi ou porco).

Levamos a figura conosco até kavieng, de lá ele queria passar por mais duas cidades para ter uma noção do sistema público de saúde da Papua e queria chegar em uma vila que de acordo com suas fontes de informação, ainda praticavam canibalismo. Ele queria conhecer a doença que pessoas que comem carne humana desenvolvem. Quando contei isso no face, disseram que era mentira, que o canibalismo foi erradicado na Papua há muitos anos. O Michel nos disse que foi erradicado teoricamente mas não na prática.

Em Kavieng conhecemos um casal de Australianos que passaram pelas ilhas Lousiades na Papua Nova Guiné, e nos contaram que nessas ilhas os nativos não comiam carne humana porque gerava a tal doença, mas que eles descobriram que comer somente o cérebro humano não fazia mal. Em algumas vilas, quando uma pessoa morre, seu cérebro é comido por parentes e amigos para que a inteligência do morto seja absorvida pelos vivos. A Australiana, encafifada foi procurar no google essa história, e leu que essa prática havia sido extinta em 1996 por um grupo de médicos, sociólogos e o escambal que obrigou o governo da Papua a acabar com qualquer tipo de canibalismo, fosse comer cérebro de morto, fosse comer um dedinho do pé. Que estávamos em uma época civilizada e não havia mais necessidade disso. Então, para os “ingleses verem” o canibalismo foi extinto. Assim, de um dia para o outro. Se organizações religiosas tivessem entrado para parada eu até acreditaria, mas na Papua existem pouquíssimas igrejas, o povo não é lá AINDA não é tão temente a Deus.

A ilha PAPUA é dividida ao meio, uma parte pertence a Papua Nova Guiné, e outra parte pertence a Indonésia, que praticamente tomou essa parte da Papua Nova Guiné para si e explorando somente o litoral. Até pouco tempo atrás, ainda haviam movimentos do “povo das montanhas” na parte Indonésia querendo independência. Daí o governo indonésio “descobriu” o bolsa família, que apaziguou os ânimos por lá. Turista não sobe as montanhas de Jayapura cidade na Indonésia que faz divisa com Vanimo na Papua Nova Guiné. Conhecemos um militar que jurou que existem tribos que comem seus recém nascidos mortos. Que existe uma tribo somente de mulheres. As mais bonitas vão até a cidade e seduzem homens dentro de padrões considerados importantes para elas. Sequestram, levam esses homens para a tribo e os obrigam a terem relações com todas elas. Depois os matam. As mulheres que engravidam, quando nasce uma menina é motivo de festa, quando nasce um menino, ele é sacrificados e comido. Esse cara disse que fizeram até um filme baseado nessa tribo, um filme com o Nicolas Cage, A Colméia, ou uma coisa do tipo, vocês se lembram!? Quando algum homem desaparece na cidade, logo colocam a culpa nas “mulheres viúvas negras” das montanhas.

São muitas histórias que escutamos, e sinceramente, eu não duvido de nada nesse mundo!

Começo a escrever sobre uma assunto e termino em outro que não têm nada a ver. Prazer, essa sou eu,Guta Favarato.

Seguem umas fotos profissionais que o Michel tirou dessas ilhas mais afastadas nas Salomões. As religiões ainda não baixaram por lá (acho que a distância ajuda, para a sorte deles). Dançar, andar pelado, comer carne de porco e várias outras coisas ainda não virou pecado. Que Deus proteja esse povo o máximo de tempo possível dos que usam seu nome em vão.

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guruca-13 guruca-14 guruca-15 guruca-16 guruca-17 guruca-18 guruca-19 guruca-20 guruca-21 guruca-22Essa sequencia de fotos é mais irada ainda:

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Pescando para levar peixinhos para o gatinho…

O Michel não se arrepende nem um pouco de ter trancado o curso, e disse que vai retornar a faculdade com uma boa “bagagem”, sem dúvidas. Isso claro, se ele voltar vivo da tal vila canibal.

– Michel, você não acha que os nativos canibais, podem quer comer um estrangeiro curioso que passar por lá?

– Mas Guta, eu sou muito magro, não valeria a pena.

– hahaha magro para fazer um churrasco querido, mas você bem que daria uma sopinha!

– Eu, uma sopa? Não tinha pensado nisso…

Somos loucos? Sim, não ou com certeza?

Mas e vocês, apoiariam um filho que resolvesse sair pelo mundo afora?

Guta
www.gurucat.com.br

Texto, fotos e vídeos reproduzidos pela SailBrasil Vida de Cruzeiro com autorização dos autores.

Diário de Bordo: Vitória/ES a Porto Seguro/BA

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Saímos de Vitória dia 14/10 às 6h00 com calmaria até as 12h00 (no motor). Daí para frente entrou o vento sul de 12 a 15 nós (já esperado) e velejamos tranqüilos. Por volta das 17h00 rizamos as velas (diminuímos área vélica – sempre antes de anoitecer rizamos as velas para maior segurança). A partir das 18h00 o vento começou a aumentar, 18 a 23 nós constantes durante toda a noite, até a nossa chegada em Caravelas às 13h00 do dia 15/10. Foi uma viagem tensa com vento forte, ondas de 3 m de popa (parecem que vão embarcar a qualquer momento!!) e levar o barco nessas condições requer muita atenção, pois o menor erro ele atravessa uma onda e a situação pode se complicar. Mas nada aconteceu e mais uma etapa já estava quase cumprida.

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Nota: nossa idéia inicial era ir para Abrolhos mas a frente fria que entrou fez estragos por toda costa e era impossível ancorar por lá, por isso decidimos nos abrigar em Caravelas e seguir viagem no dia seguinte.

Em Caravelas encontramos uma escuna veleiro de 60’ (Patrícia), uma maravilha toda em madeira, muito bem cuidada e com uma tripulação muito simpática. O skipper era do Rio de Janeiro com experiência de + de 40 anos de navegação, o restante eram marinheiros moradores de Porto Seguro, para onde estavam levando a escuna.

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Nossa idéia inicial não era parar em Porto Seguro, pois é uma entrada muito perigosa com um recife longo na entrada, sendo necessário ajuda local, e sim sair de Caravelas para Cumuruxatiba e depois direto para a Baía de Cabrália, onde Cabral ancorou em 1500. Mas o pessoal da escuna nos convenceu a ir para Porto Seguro junto com eles, afinal conheciam tudo. Para garantir, durante a noite o Marcelinho fez toda a navegação de Caravelas a Porto Seguro o que nos levaria com segurança

No dia seguinte zarpamos por volta de 7 da manhã.. A barra de Caravelas é também cheia de recifes, como toda costa baiana, todo cuidado é pouco!!!!!!

O vento estava de sul ameno e fizemos uma bela velejada com a escuna sempre a nossa frente. O dia estava maravilhoso e resolvemos fazer uma feijoada!!!

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Como o ser humano se adapta a qualquer condição. Quando poderíamos imaginar fazer e comer uma feijoada em pleno mar, sacudindo. Mas a nossa integração com o mar e o barco esta sendo perfeita!

Pelos nossos cálculos chegaríamos em Porto Seguro às 18h00. Lá pelas 16H30 avistamos o Monte Pascoal e foi aí que sentimos que estávamos mais perto da costa do que devíamos. Fizemos a plotagem na carta náutica e nos demos conta que estávamos bem na entrada do Recife Itacolomis (susto geral!!!!!!). Contatamos a escuna por rádio e descobrimos que eles estavam navegando no olho, sem GPS, somente no radar. Demos, então, a noticia a eles: Vocês estão em cima da coroa do recife!!!!! Imediatamente eles tentaram voltar e foi pior, pois acabaram subindo nos corais. Por outro lado, como estávamos bem na entrada do recife, conseguimos sair com facilidade, mas mesmo assim esbarramos por duas vezes a quilha nos corais. A sensação é horrorosa!!!!! Pegamos a carta náutica e como se fosse uma estrada plotamos cada minuto até sairmos da zona de perigo e conseqüentemente também tiramos a escuna de dentro do recife. Parece até fácil, mas para voltarmos pegamos mar e vento contra (as ondas invadiam o barco) e sem saber se o barco estava avariado ou não. Agora o Beethoven é que ia na frente!!!!! Com tudo isso perdemos muito tempo e só conseguimos chegar em Porto Seguro às 2h00. A escuna na entrada da barra foi na frente, pois tinha o pessoal local, lembram?????

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A tripulação estava cansada, molhada e com a moral um pouco baixa e como a entrada da barra é complicada e a maré estava baixa tivemos que confiar na escuna, br….br…..br……br….

A escuna pesa 100 toneladas (35 toneladas só de quilha) e passou pelo banco de areia, mas nosso amigo Beethoven não passou e encalhamos. Agora, sem estresse, o “japonês” que estava na escuna veio para o barco e com a maior tranqüilidade nos tirou do banco de areia.. Estávamos quites. E assim é no mar, sempre um ajudando o outro, pois não sabemos o que está reservado para nós

Enfim, conseguimos ancorar no píer público, tomar um banho e dormir. No dia seguinte, às 6h00, com a maré alta, fomos para o Hotel Quinta do Porto, em Arraial D’Ajuda, onde o proprietário Sr. Sérgio Pessoa, que também é velejador, liberou píer com água, luz e Internet – ancoragem 5 estrelas.. Nossos agradecimentos ao Mário que indicou o Hotel e deu muitas dicas de passeios. Agora sim, voltávamos ao normal, com a velha faxina no barco e muita roupa para lavar!!!!!!!!

Ficamos 15 dias em Porto Seguro. Para conhecer o lugar resolvemos procurar uma agência de Turismo e dentre as dezenas que tem por lá, entramos justamente na que o proprietário, HERMES PESCI, é morador de São Sebastião ( esse mundo é pequeno). Por conta disso nos deu de presente o passeio ao Recife de Fora, também nossos agradecimentos!!!! O Parque Marinho Municipal de Recife de Fora fica a 5 milhas da costa e é visitado com maré baixa para que se possa mergulhar próximo aos recifes de coral, numa área restrita e monitorada pelo IBAMA.

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Mais coincidências: encontramos Valéria, filha de Tiago Fortunato e Alexandre, da AUMAR em Ubatuba onde o Beethoven ficou por 1 ano, que estavam em lua de mel em Porto Seguro!

Os passeios por aqui são verdadeiras aulas de História, pois se vai aos lugares onde os fatos do Descobrimento do Brasil aconteceram. Uma emoção!!!!!!! Aqui fizemos bons amigos, como Denis, Simara e seu filho Pedro. Eles são donos de um restaurante de comida japonesa em Arraial D’Ajuda – Suhsi Blues (ambiente agradável, bem decorado e comida maravilhosa!!!!). Como nós, eles também querem comprar um barco e viajar mundo afora, e por isso convidamos o casal para nos acompanhar até Salvador. Aceitaram o convite na hora. Tudo foi combinado para o dia 30/10.

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Marcelo e Maura
Família Vicente – Veleiro Gardian
http://veleiro.net/familiavicente/index.htm

Texto, fotos e vídeos reproduzidos pela SailBrasil Vida de Cruzeiro com autorização dos autores.

As Primeiras Velejadas de St. Vincent à St. Maarten

Volta ao mundo no veleiro Bonanza – Ventos do Bem
Nossa principal preocupação foi aprender o máximo possível num curto espaço de tempo.
Vale novamente mencionar nosso skipper, Mané da Brava, que soube mesclar paciência e cobrança nesse nosso aprendizado inicial.
Começamos fazendo velejadas em St. Vincent e por lá ancoramos em Bequia, Blue Lagoon e Wallallibou (onde foi gravado o filme Piratas do Caribe). Estávamos aos poucos nos habituando com a vida à bordo e ao mesmo tempo começando a sentir e a conhecer o Bonanza.
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Em seguida passamos por St. Lucia, até chegarmos em Martinica, esta foi uma travessia dura, ventos e rajadas fortes, uma delas batendo algo em torno de 50 nós (mais de 90 km/h), muita chuva e ondas grandes.
Exigiu frieza e nos fez respeitar ainda mais o mar e a natureza. Além da nossas energias, nos custou um remendo na vela grande (feito no dia seguinte num sailmaker local).
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Assim que chegamos no canal para entrarmos em Martinica, final de tarde, o alternador parou de mandar energia ao banco de baterias, e logo em seguida começou a vazar água do reservatório do motor, causando um superaquecimento e muita fumaça. Parecia que um incêndio estava prestes a acontecer. Um novo momento de estresse à bordo, ainda estávamos sob o efeito da porrada que havíamos pego horas atrás, quando nos deparamos com essa situação adversa, e para piorar, sem a vela grande (rasgada), sem motor, apenas com a jib içada e sem vento para manobrar dos navios e ferries que trafegavam no canal a toda velocidade. Já era noite quando ancoramos em Martinica, só com a jib, dando motor apenas na última manobra, cansados, mas como diz o capitão, nada é por acaso, tudo na vida tem um propósito. No dia seguinte, enquanto a vela grande era costurada fazíamos a manutenção no motor e alternador. Com “tudo certo” rumamos norte para Antigua, passando antes por outras duas travessias, Dominica e em seguida Guadaloupe. Ancoramos em Guadaloupe após uma velejada tranquila e dia lindo, descansamos e nos preparamos para a próxima velejada, iríamos nos encontrar com a Neiva e Tom em Antigua, momento tão esperado. Em virtude de vento forte e ondas grandes não conseguimos chegar em nosso próximo destino, foram necessárias três tentativas, muita paciência e esforço por parte da tripulação.
Aprendemos que não se deve ter vergonha em dar meia volta, afinal nada é mais valioso do que nossas vidas, e que também não se agenda compromissos quando se está navegando. Nessa nossa nova rotina de vida não existe dia de semana ou final de semana, o calendário nosso de cada dia é ditado pelas forças da natureza.
Enfim em Antigua, os novos membros da tripulação vieram à bordo.
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Velejamos por duas horas e fizemos uma parada em Deep Bay, para recarregarmos as energias. Lindo lugar!!!
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No dia seguinte continuamos até nosso destino final neste primeiro momento da viagem, rumo à St. Maarten/ Sint Martin.
A última velejada com o Mané, e o nosso primeiro overnight (parabéns tripulação). Como é extraordinário velejar com o céu estrelado e admirar o rastro incandescente que o barco deixa no mar. Mais um momento inesquecível. Ancoramos em Simpson Bay, lado holandês, em 29/11/2014, 14 dias de velejadas, uma manhã ensolarada, uma nova etapa se iniciaria.
Agora é a hora de fazermos os reparos e melhorias necessárias no barco para continuarmos nossa viagem e realizarmos nosso sonho de dar a volta ao mundo de veleiro.

Bonanza – Ventos do Bem
http://bonanzaventosdobem.blogspot.com.br/

Texto, fotos e vídeos reproduzidos pela SailBrasil Vida de Cruzeiro com autorização dos autores.