Volta da Ilhabela em um Soling – Guilherme Borelli

Boas!

O Soling é um veleiro de 27 pés, armado em eslupe e sem cabine, para três tripulantes. Foi classe olímpica entre os anos 1972 e 2000. Projetado mais para a regata do que para cruzeiro, tem a quilha lastreada – o que lhe confere maior estabilidade.

A primeira vista não seria um barco ideal para se fazer travessias em solitário pelo litoral de São Paulo. A despeito disso, o velejador Guilherme Borelli já acumula mais de cem milhas náuticas nessas condições.
Primeiro Guilherme fez a travessia Santos – Ilhabela, a bordo de seu barco, batizado de Little NOOR. Agora, foi a vez da desafiadora Volta da Ilhabela, completada nos últimos dias 02 e 03 de novembro.
Conversei com Guilherme sobre essa experiência. Vejam o que ele contou:

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Nome do Barco: Little NOOR

Modelo : Soling

Plano Vélico : Bermudiano, vela grande e buja somam juntas 21,7 m² e um spinnaker de 45 m²

Motor :  Auxiliar de 8hp (utilizado como último recurso após adaptação na popa do barco).

 

 

 

Juca Andrade: O Soling possui 27 pés e é lastreado, o que o torna bastante seguro.  Ainda assim não possui cabine habitável, com banheiro, cama, cozinha. Em um primeiro momento isso pode fazer crer que o barco é desconfortável para travessias oceânicas. É isso mesmo?

Guilherme Borelli: Sim, é um barco lastreado, isso dá muita segurança à navegação, mas ele é desprovido de cabine, portanto não tem cama, banheiro nem cozinha. Não é um barco feito para travessias oceânicas e tem zero conforto.

JA: Você fez alguma adaptação no barco para fazer travessias? Como dormia, cozinhava, ia ao banheiro?

GB: Não fiz adaptações no barco. A comida levo pronta em bolsas térmicas. É uma alimentação pensada e difícil de estragar (ex: arroz integral, frango cozido , tubérculos, verduras, frutas e chocolate).  Banheiro….rsrsrs. Uso metade de uma garrafa para urinar e dispenso o líquido no mar, geralmente  faço isso agachado para não correr o risco de cair do barco. O n° 2 tem um pote maior separado, mas por alguma razão extremamente psicológica ainda não precisei utilizá-lo (rsrsrs). Durmo no cockpit em um saco de dormir.

JA: Antes da Volta na Ilhabela, você fez a travessia Santos – Ilhabela. Como foi essa experiência? Conseguiu fazer sem escalas e apenas na vela?

GB: A experiência foi fantástica. Fiz com uma parada nas Ilhas do Saí. E usei o motor em dois momentos, no primeiro dia ao sair do canal de Santos até a Ilha da Moela e no segundo ao deixar as Ilhas do Saí até a Ilha de Toque – Toque, o resto foi na vela. O interessante é que abri 15 Mn para fora para buscar vento  E  isso permitiu uma boa orça em direção às Ilhas do Saí no primeiro dia. O Montão de Trigo que fica a frente destas era constante na minha proa e crescia paulatinamente. É uma imagem que não sairá da minha cabeça.

 

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Montão de Trigo, a Ilha que nunca chega… – Foto: Guilherme Borelli

JA: Sobre a Volta na Ilhabela. Você fez em sentido horário ou anti-horário? Saiu de que ponto da Ilha e que horas?

GB: A volta na Ilha foi em sentido horário. Parti as 15 horas da prainha logo atrás do YCI e retornei ao mesmo ponto exatamente às 15 horas do dia seguinte.
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JA: Durante a travessia, qual a direção do vento predominante? Qual a altura do mar (ondas)? Qual a direção das ondas?

GB:  Durante a volta a Ilhabela no primeiro dia predominou um E de 10 a 15 nós e ondulação de NE, o mar não passou  de 1 metro , bem constante. O segundo dia amanheceu da mesma forma, porém às 7h30 da manhã entrou um vento NE muito forte de 30 a 35 nós com ondas de 1,5 a 2 metros de mesmo sentido, quando eu estava entre Ponta da Pirabura e a Ponta do Boi. Acredito que bati 11 a 12 nós de velocidade no Soling, não houve espaço para erros. Um navio de pesca que passava por ali ( Capitão Davi) tinha todos os seus tripulantes no convés observando o meu desempenho. Depois da Ponta do Boi  as montanhas da Ilha amenizaram esse sistema e a navegação ficou mais tranquila. Reencontrei o fim deste vento N na entrada do Canal.
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No detalhe, o pequeno cockpit do Soling. – Foto: Guilherme Borelli
JA: Você levou pirotécnicos? Se sim, quais? Usou Spot ou algum localizador pessoal?GB: Não tenho pirotécnicos ( me cobro por isso), uso o Spot como localizador e acho muito bom. Tenho um rádio de mão Icom.

JA: Que âncora vc usou? Quantos metros de cabo e quantos metros de corrente? O seu conjunto de fundeio se mostrou eficiente?

GB: Usei uma bruce de 5kg, com 3 metros de corrente e mais 40 de cabo. Funciona bem , mas acordo de hora em hora para verificar se não está garrando. Nas ilhas do Saí tive que refazer o fundeio, apenas uma vez. Na volta a Ilhabela, foi bem tranquilo.

JA: Houve navegação noturna?

GB: Na volta a Ilha havia planejado duas paradas, uma na Praia da Fome e outra no  Saco do Sombrio. Como as condições eram muito favoráveis no primeiro dia, resolvi ir direto para o Sombrio e isto me forçou a navegar de noite.

JA: Qual foi seu maior desafio pessoal nessa travessia? Chegou a ter momentos de tédio, esgotamento físico ou mental? Se sim, o que fez para lidar com isso?

GB: O maior desafio pessoal é se manter dentro do planejamento. Como o barco não tem cabine, coloquei em post its com a posição que eu deveria estar a cada hora  e procurava cumprir com elas aferindo no GPS. Tédio só existe quando não tem vento. Isso é fato para qualquer velejador. Não gostamos do barulho do motor e nem de ficar balançando parados no mesmo lugar. O esgotamento físico só sinto depois que pulo do barco e ele vem como uma tijolada na cabeça (risos). Esgotamento mental não há, porque o prazer é muito grande é o que eu mais gosto de fazer.

 

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Os post its de planejamento. – Foto: Guilherme Borelli

JA: O que vc não levou que agora acredita que deveria ter levado? E o contrário, o que foi absolutamente desnecessário?

GB: Não levei um Boné, item básico e que fez falta nos momentos de sol forte. Sem falar nos pirotécnicos que não fizeram falta graças a Deus. E ao contrário , carreguei na travessia e na volta a Ilhabela uma linhada e uma faca sonhando em pescar  algo no corrico, doce ilusão, acho que não levarei mais.
JA: Vc acredita que travessias em veleiros de pequeno porte são “uma aventura”, ou algo que pode ser feito de forma mais rotineira em nosso litoral?
GB: Não são uma aventura, definitivamente. As condições do nosso litoral são convidativas e propícias. Basta um bom planejamento.
JA: Vc acredita que a travessia de Guarujá a Ilhabela serviu de preparação para a Volta da Ilhabela no Soling ou as duas navegações foram muito diferentes?
GB: Serviu e muito no preparo do barco, uso de equipamentos, planejamento da alimentação, etc.  A navegação em si, muda. A Ilha é diferente de Santos, que por sua vez é diferente do Saí. Os acompanhamentos das formações meteorológicas foi igual , começaram uma semana antes, mas estas obviamente foram diferentes entre uma e outra travessia.  Quanto ao psicológico, este fica cada vez mais forte.
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A Ilha da Moela. – Foto: Guilherme Borelli
JA: E agora, qual o próximo desafio?

GB: O próximo desafio deve ser Ilhabela –Alcatrazes – Ilhabela, sem paradas obviamente , porque o parque não permite. E existe um sonho crescendo aqui de fazer Santos – Rio, mas esse ainda é muito embrionário.
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A carta náutica: chocadeira de sonhos embrionários.

 

Juca Andrade

E-Mail contato: CUSCOBALDOSO@GMAIL.COM ou CAPITAO@CUSCOBALDOSO.COM

Maiores informações: www.cuscobaldoso.com

Vamos no pano mesmo!!!

CUSCO BALDOSO EXPERIÊNCIAS EM VELA OCEÂNICA

 

Link original da matéria: http://veleirobaldoso.blogspot.com/2018/11/volta-da-ilhabela-em-um-soling.html?m=1

 

Veiculado pela SailBrasil News com autorização dos autores. Copyright © Cusco Baldoso. Todos os direitos reservados. All rights reserved.

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