Quando a política também sopra nossas velas – Por Cap. Ricardo Pretz

Sempre que a gente navega em trechos longos a imaginação e a inspiração afloram, nos tempos e na velocidade do vento, uma tranquilidade inspiradora.sbnews-foto-20180806-03Diariamente reforço minhas convicções de que nós velejadores além de uma carga de conhecimento tremendo que temos que levar e permanentemente atualizar no sentido de melhorar nossa segurança e operação dos nossos veleiros, temos que levantar os olhos e observar a cada amanhecer, mais variáveis.

Hoje em dia, creio que temos que redobrar o esforço em adicionar um cuidado a mais quando ingressamos águas territoriais de alguns países, pois muitas vezes situações político-sociais de terra podem nos alcançar no mar.

Quando entrei na faculdade, a população da terra era pouco mais da metade do que é hoje e o reflexo já se vê no trânsito marítimo e na poluição.   Está difícil encontrar lugares onde a presença humana não seja visível ou mesmo que não se perceba alterações ambientais. Os metros quadrados do planeta são os mesmos, porém alguns problemas se estão densificando como consequência deste aumento demográfico.

Porém, neste universo há um tópico que realmente nos remete a coisas muito mais ilógicas e perigosas que uma tempestade – esta é bem lógica – e que temos que ter cada dia mais presentes em nossa atenção permanente no planejamento de viagens:

A segurança das águas que velejamos, desde o ponto de vista da estabilidade política e social da região.

Um exemplo clássico e já conhecido é a pirataria. Porém, atualmente, próximo a nós há outros elementos a considerar e que às vezes nos passam despercebidos. Me refiro ao que está acontecendo na Patagônia em termos de uma extrema tensão, desde o “desaparecimento” do submarino ARA San Juan.

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Recente passagem pela península de Valdéz – Foto: Cap. Ricardo Pretz

Todos já sabemos da fama da burocracia e corrupção das autoridades da Argentina, e eu não gastaria um minuto mais em descrever o obvio que inclusive o Amyr já  bem relatou ser o motivo pelo qual raras vezes parou em portos Argentinos, ou mesmo do site “Cruisers & Sailing Forums” (vejam o rating da Argentina pelos próprios velejadores) e uma centena mais de relatos de estrangeiros de múltiplas nacionalidades sobre experiencias desastrosas e vergonhosas vividas ao passar naquele País.

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Trafego marítimo entre a entrada de Magalhães e a Península de Valdez com inúmeras embarcações nacionais e principalmente estrangeiras com AIS desligado, pela pesca ilegal: um perigo real que faz o radar e a vigilância visual ser indispensável. – Foto: Cap.Ricardo Pretz

Desta vez as coisas estão um pouco diferentes e há novidades.

Entre as tantas informações manipuladas ou cujo governo “faz não aparecer” e outras jogadas sem responsabilidade na imprensa e mídia, há todas as tendências imagináveis e a internet está coberta de informações confiáveis e desastrosamente errônea sobre o que está acontecendo.

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Imagem do Chartplotter: Areas de operações de submarino. Há 2 áreas na costa da Patagônia. – Foto: Cap.Ricardo Pretz

Vamos por partes: Até o momento foram feitas buscas ao submarino em uma área pré-definida localmente que não ajuda a encontra-lo, pois o problema é muito grave e seja por falha no equipamento decorrente de desvios de verbas públicas, ou a mais visível, que é um evento de espionagem nas Falklands – já documentado e delatado pela televisão argentina – que teria levado a uma ação onde o submarino foi eliminado com reação bélica da Inglaterra e/ou Chile, todas as autoridades na região estão indicando um alto nível de tensão. Altíssimo, e eu recomendaria que não fosse negligenciado pela nossa comunidade de velejadores.

Seja uma versão ou outra, o “abafa” que o governo argentino vem fazendo é vergonhoso e não será fácil ser suportado por muito mais tempo. Pelo menos de forma simples e racional.  No momento, para não haver maiores problemas o poder executivo da Argentina está  sendo acusado de fazer várias concessões aos ingleses, enquanto as forças armadas estão indignadas e irritadas com a perda de 44 colegas em uma clara divisão de opiniões que, como resultado, sofre as consequências, quem é estrangeiro e aporta na Argentina, pois estes dependem das autoridades militares para ingresso.  Não é uma boa ideia no momento entrar na Argentina com barcos de países da OTAN ou mesmo países europeus em geral. Especialmente complicado às bandeiras britânicas e americana.

É tão visível que após a temporada Antártica deste ano e desde março, há uma debandada de barcos da Patagônia ao Uruguay e daí de volta a suas casas.  Todos evitaram parar em portos Argentinos o que, pelas características da região complica muito a navegação nestas latitudes nesta época do ano.

Tenho falado com muitos dos que retornaram do continente Antártico, foram obrigados a parar em Portos Chilenos ou foram levados para lá pela atitude de autoridades Argentinas com relação ao ingresso ao país e na verdade formei minha opinião com respeito a este assunto desde relatos ingênuos de capitães que atuam sem nenhum planejamento, até aulas de “Sea Dogs” extremamente experientes e muito astutos que se deram conta do que está acontecendo.  Quando a primeira pergunta que fazem pelo radio é que bandeira tem seu barco, algo está mal, recomendo que nunca se esqueçam desta regra, ela não falha.

É isso que está acontecendo na região e se recordam do conflito do Canal de Beagle, entre Argentina e Chile afirmo que as tensões nunca foram aliviadas.  Quando somamos isto a Guerra das Malvinas, onde definitivamente vimos Chile, Reino Unido e USA mais unidos que nunca, fica mais fácil de entender o que está passando.

Recentemente me inteirei que desde a guerra da Malvinas a Argentina abandonou 3 mil minas em suas águas e nunca as removeu ou desativou, uma notícia realmente má, denunciada recentemente por um expert em submarinos e engenheiro naval Professor da Universidade Tecnológica Nacional argentina – inclusive como teoria ao desaparecimento do submarino – porém que por sorte não nos afeta, pois estão a 10 metros de profundidade.

A nós brasileiros, não pensemos que o fato de usar nossa bandeira e ser vizinhos nos exclui do problema atualmente. Um barco brasileiro que haja passado em um porto chileno vai encontrar atualmente uma dose extra de má vontade/dificuldade para entrar no país do bom vinho e tango. Não se enganem: Se você não está comprando ou pagando por algo, como regra geral, você não é sinceramente bem-vindo. Simples assim, e sem nenhum pudor de fazer você andar de um lado para o outro com informações divergentes, caminhando quilômetros na burocracia. A opção é queixar-se ao Papa Francisco, porém nada surtirá efeito.

De fato, nos alivia o martírio se o Conhecimento tem como porto anterior algum porto brasileiro e temos uma bandeira Brasileira na Popa.   Neste aspecto, nos castigam dentro dos padrões normais daquele país.

Aqui faço uma Ressalva: Buenos Aires não se comporta como fosse Argentina neste assunto, pois por seu porto e características gerais, recebem diariamente gente do mundo todo e todas bandeiras. Além do que o governo atual, tem se mostrado muito permissivo e inclusive muito “amistoso” com os britânicos na Capital.  Fora da mesma, e em áreas militares, como todos os portos oceânicos a realidade é outra.

Tenho encontrado velejadores absolutamente alienados da realidade tensa existente, pelo que, acho interessante apresentar algum aporte neste sentido.

Creio seja ponderado dar tempo ao tempo para ver como serão esclarecidos e resolvidos os problemas gerados a partir desta tragédia, bem como qual será o desenrolar dos fatos que em síntese, diria que até que as coisas se esclareçam ou se encontre uma resposta “oficial” satisfatória, eu não recomendaria muito o turismo à vela na região sem altíssimo conhecimento, planejamento e cautela.

Em breve estará no ar o canal Sailing SV Canela, onde temas de interesse comum, entrevistas e dicas como esta serão compartilhados com os amigos da água e do vento.

Abraços e Bons Ventos!

 

Cap. Ricardo Pretz

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Veiculado pela SailBrasil News com autorização do autor. Copyright © Cap. Ricardo Pretz. Todos os direitos reservados. All rights reserved.

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