A compra do Galeão por Nelson Bastos – Memórias de José Carlos Lodovici

Extraído do Facebook de Jose Carlos Lodovici e veiculado pela SailBrasil News com autorização do autor, que inicia o texto com… resolvi abrir uma publicação específica para este assunto, por sinal muito interessante.

O interessante de toda essa história relacionada ao Nelson Bastos e à Fast, é que ele, originalmente, era um ‘lancheiro’…

Num dia de 1972, precisamente no mês de abril, ele apareceu pelo ICS (Iate Clube de Santos) à procura de uma lancha para comprar.

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Essa era a bitácula (fac simile) Lionel do ‘Galeão’

Bastos era sócio do YCI (Yacht Club de Ilhabela). Enquanto passeava com a sua ex, pelo píer, a esposa Mercedes apaixonou-se pela bitácula do Galeão.

Era uma sexta-feira à tarde, o barco estava “limpinho”, com os bronzes polidos.

Recordo que tinhamos um marinheiro gaúcho, de Don Pedrito Cabalero, que tinha 15 filhos… Gastava 1 litro de Kaol toda sexta…

Enquanto o Nelson prosseguiu caminhando pelo píer, a mulher ficou parada contemplando a bitácula (da US Navy, com lamparina a querosene).

Recordo que eu estava no cockpit, tomando um café, ao mesmo tempo que via o movimento do casal.

Lá pelas tantas ela o chamou, e ambos ficaram confabulando sobre o barco…

Já me sentido pouco à vontade, os convidei para entrar a bordo.

Ele, curioso, pediu para ver tudo. Abri o porão, liguei motor, etc.

Lá pelas tantas ele perguntou se o barco estava a venda, respondendo negativamente, complementando que o barco era a “minha vida”… Nessa época tinha em meu poder, uma proposta proforma de um veleiro modelo/marca ‘Arpege’, cujo representante era o Jaques Mille do ‘O Veleiro’ (o Sr. Jaques Mille, junto com o Mario Besse, traziam os Arpege e os Sortilege) do RJ.

Recordo que um Arpege custaria 81.000 (ou milhões – não me recordo a moeda), posto em Santos, já que não havia incidência de alíquota alfandegária para equipamento esportivo (Decreto Lei 608).

Um ano antes, creio, eu havia corrido a Santos-Rio e me recordo do ‘Petron’ (o Petron era um CAL 33, trazido pelo Sr. Ernesto Bicalho, do ICRJ) ter sido bem colocado. Lá pelas tantas, soube que o nome Petron se devia ao fato do seu dono tê-lo adquirido com ganhos provenientes de ações Petrobrás ON (Ordinárias Nominativas).

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O ‘Galeão’, recém lançado ao mar (ICS – 1961) e ainda sem o mastro de mezena, com seu maciço e elaborado convés de Cabreúva de 1″ (com calafeto de algodão e um ‘mastic’ de piche+breu). Em pé, aparece o seu desenhista e construtor Domingos Stipanich e Lucas Jonker que, além de famoso marinheiro sueco, responsável pelo ‘Sirocco’, era muito habilidoso ao confeccionar as ‘mãos de cabo’ trançadas do estaiamento. O veleiro a BE é o ‘Sagres V’ (ex ‘Cairú II’) e a BB o ‘Curussá (um yawl S&S 40’ ‘White Caps’), também de construção Stipanich. A Cabreúva (Miroxylon balsamum), também conhecida como ‘Bálsamo do Peru’, ou o ‘Incienso’ dos argentinos, possui um odor peculiar, extremamente agradável. Era tida como a ‘rainha das madeiras brasileiras’ destinadas à construção naval. O ‘Galeão’ pertenceu, nos últimos tempos, a um argentino residente em Buenos Aires, que voava quinzenalmente ao Brasil. Confiou o veleiro a um marinheiro que, por algum motivo banal, deixou o barco ir ao fundo… Hoje, provavelmente carcomido pelo gusano, jaz atolado na lama a uma profundidade de 8 metros, na cabeceira do extinto campo de aviação de Ilhabela… É oportuno notar, no horizonte da fotografia, um resquício de mangue, então existente na Ilha de São Vicente, hoje ocupado pelo Porto de Santos. – Foto: Autor desconhecido

 

Ainda com o Nelson Bastos, num dado instante da conversa, ele falou que “tudo tinha seu preço” … Imediatamente, fiz as contas, pedindo pelo Galeão a importância de 60.000, pensando em comprar Petrobrás ON, para depois alcançar o montante suficiente para importar o tal Arpege… Assim ele (Nelson Bastos) comprou o Galeão, e eu comprei as tais Petrobrás, vindo, logo em seguida, a ‘Guerra do Golfo’, me impondo ‘recuperar’ o investimento apenas depois de 12 anos … Desse episódio, não é preciso dizer que, naquele momento, Nelson Bastos havia sido picado pela ‘cobra’, ou seja: de ‘lancheiro’ passou a ‘velejador’ originando, depois de algum tempo, a ‘Fast Yachts’…

Na viagem de Santos para Ilhabela, o barco andou adernando, a ponto de ter levado sua mulher ao ‘pânico’… Poucos dias após ele me propôs revogar o negócio, mas eu já estava irreversivelmente posicionado nas ações Petrobrás…

Por José Carlos Lodovici

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Informações do veleiro Galeão

Veleiro, ketch de 40 pés – Construção e Desenho de Domingos Stipanich – 1961, construído em madeira com convés de Cabreúva de 1″ com calafeto de algodão e um mastic de piche e breu.

O primeiro proprietário, que comprou o Galeão do Domingos Stipanich, foi o Sr. Luiz Pacheco e Silva. Sabendo que o Stipanich estava construindo o Itahym (um White Caps S&S No. 401 – todo em pregos de cobre e lastro de chumbo) o Lulú, como era conhecido, fez questão de desfazer o negócio e comprar o Itahym.

O desenho do Galeão foi desenvolvido com base em memorizações, passível, portanto, de infidelidades, uma vez que o Stipanich raramente fazia o projeto, bastando uma maquete em meio modelo, dela extraindo o “plano de linhas”. O restante da construção ficava por conta da sua experiencia de juventude, ao desmancha clíperes abandonados no Porto de Santos (bairro da Bocaina – Guarujá). Tratava-se de uma verdadeira dissecação, tal qual fazem os estudantes de medicina, com o corpo humano.

Domingos Stipanich construiu 16 veleiros: Popeye, Caviana, Claudiomar, Galerno, Galeão, Ibirapuera (dupla-proa), Concorde, Santos Dummont (Markab – em 1954 correu a Rio-Santos), Itahym (S&S), Tarimba (1953/54 primeiro veleiro com leme separado da quilha – spade-rudder – com fundo em “V”), Remoto (gêmeo do Tarimba), Bonanza, Xuí, Scorpio, Moleza (Motor-sailer – 1966) e Corussá (S&S).

Duas curiosidades:

  1. Todos os veleiros do Stipanich possuem uma boca (largura de uma determinada secção transversal de uma embarcação, medida de um bordo ao outro, geralmente, no seu centro) estreita já que os veleiros eram construídos no seu galpão ao lado da sua residência que não era muito largo. A largura (boca) de cada veleiro era limitada sempre pela largura máxima permitida para se trabalhar no veleiro dentro do galpão.
  2. Os veleiros eram puxados por um velho Buick 1948 com carretas fabricadas pelo próprio Stipanich com rodas sólidas de um “primitivo” caminhão desativado que ele adquiriu da Cia. Docas de Santos. No trajeto da sua casa/estaleiro até o ICS, as rodas aqueciam obrigando o Stipanich a parar para jogar água para esfriar-las. Dos 16 veleiros construídos, pelo menos 14 foram transportados dessa maneira.

O Galeão, por ter sido totalmente construído “de cabeça”, era impraticável ter feito um “as built”, pois o Galeão ora jaz atolado na argila do Canal de São Sebastião tendo afundado (por volta de 1984), enquanto era de propriedade de um Argentino, que deixou o marinheiro cuidando do veleiro… afundou em frente ao extinto campo de aviação de Ilhabela.

 

Características:

Modelo: Artesanal, construído com base em planos “da cabeça” do Domingos Stipanich com base em algum modelo transversal por ele desenvolvido.

Estaleiro: Domingos Stipanich – Desativado

Numeral: Iniciou com o numeral BL 71 e posteriormente foi trocado pelo BL 119

Tripulantes: N/D

Passageiros: N/D

Ano do Casco: 1961

Proprietários: 

  • Domingos Stipanich – 1961/1961
  • Luiz Pacheco e Silva – 1961/1962
  • Domingos Stipanich – 1962/1966
  • José Carlos Lodovici (foi registrado inicialmente no nome de Pedro Lodovici Neto, irmão, até o José Carlos alcançar a maioridade) – 1966/1972
  • Nelson de Sampaio Bastos – 1972/?
  • Arturo – ?/1981
  • Nelo Pimentel – 1981/1985
  • Eduardo Espiaut – 1985/?
  • ? (Argentino – último dono)

Inscrição: N/D

Classificação: Mar aberto – D3I

Motor/ Número do Motor: Penta C2 – 12 HP / N/D

Número do casco: N/D

 

Fotos:

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“Galeão” no Sangava – Foto: José Carlos Lodovici

 

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Galeão no Canal Clube de Pesca e Sky – Canal de Bertioga 1967 com José Carlos Lodovici, Pedro Lodovici Neto e Alexander Christiani – Foto: Autor desconhecido

 

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No flutuante do ICS – 1968 – Foto: José Carlos Lodovici

 

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Ilhabela – 1968 – Foto: José Carlos Lodovici (tomada do caíco)

 

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Na Lestada – Baía de Santos 1968 – Foto: José Carlos Lodovici

 

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Galeão e Cavendish (anterior Claudiomar) – Canal da Bertioga – 1967 – ambos barcos são de construção Stipanich. – Foto: Preben Haagensen (proprietário do Cavendish)

 

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Galeão em sua primeira viagem a Ilhabela – Saco da capela – 1968 – Foto: Foto de um cartão postal da época.

 

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Galeão em Construção – Foto: José Carlos Lodovici

 

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Esse era o maravilhoso motorzinho Penta, que tínhamos no ‘Galeão’. Funcionava como um relógio. Com 12 HP, proporcionava uma relação de apenas 1.5 HP por tonelada de deslocamento, o que era baixíssimo diante dos padrões atuais, tratando-se pois de um verdadeiro motor auxiliar, destinado às manobras no porto, e nas calmarias. Podia funcionar com gasolina, ou querosene (Hesselman Engine) e ainda contava com o recurso de uma partida manual, coisa que é rara hoje em dia. Notar que sua marca era tão somente Penta, uma associação de cinco engenheiros, antes da aquisição da Volvo. Com taxas de compressão bem mais reduzidas do que os diesels, os motores a gasolina/ querosene podem ser bem mais leves, o que, aliás, é o seu único benefício. De resto, eles são muito perigosos diante de qualquer vazamento de gasolina no porão, tornando-se explosiva. Já vi barcos voando pelos ares… – Foto: José Carlos Lodovici

 

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Propaganda Penta da época – Créditos: Penta/ Volvo Penta

 

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Domingos Stipanich no Galeão. Ao seu lado, a bitácora Lionel – 1968 – Foto: José Carlos Lodovici

 

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De retorno ao Clube de origem, o ICS, em 1º de novembro de 1968. Ao fundo, a embarcação maior é uma ex-embarcação de cabotagem que foi restaurada por Stipanich chamada Schemara. – Foto: Autor desconhecido

 

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Apoitado no Rio Santo Amaro ICS foto de 1968 – Foto: José Carlos Lodovici

 

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Na foto, o Sr. Darcy Stipanich, que foi colaborador da extinta revista “Yachting Brasileiro”, acompanha o “Tarimba” ou o “Remoto”, não dá para ter certeza qual pois eram quase iguais… Esse Buick, com a carreta de um par de roda sólida, transportou inúmeros e grandes veleiros… Notar o “Spade Rudder” desenvolvido por Stipanich na época, muito antes dos Cal’s 40 projetados pelo Bill Lapworth, tido como criador da inovação. Os Cal’s 40 datam da década de 60, enquanto o Tarimba e o Remoto são de meados dos anos 50. Aparentemente, na primeira inscrição que o Stipanich fez (ou tentou fazer) na Santos-Rio, o pessoal dos predominantes Classe Brasil, a recusaram, sob alegação de tratar-se de um veleiro “planador” e não de deslocamento.

 

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Esta foto, tirada enquanto o Galeão era de propriedade do Sr. Nelo Pimentel, mostra o Galeão decorado e com tripulação durante a procissão dos pescadores no dia de São Pedro – 29/06/1985, uns meses antes de que ele o vendesse ao Sr. Eduardo Espiaut. Foto: Autor desconhecido – tirada desde o barco Irerê.

 

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Foto do ICS, provavelmente anterior a 1966, tomada do mastro de um veleiro, aparecendo o “Curussá” (em primeiro plano), ladeado pelo “Galeão”, “Sagres V”, “Santa Rita”, “Brisa”, ao lado do “Brisa” me parece ser o “Patna” (anterior “Galerno”), “Itahym”, “Sirocco” (envernizado), “Hobby”, “Maracaibo”, (um pequeno barco que não dá para identificar), e o “Albacora” fechando a flotilha. – Foto: Autor desconhecido.

 

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Meu irmão Pedro Lodovici Neto, o amigo Alexander Christiani ao pé do ‘Itahym’ – um S&S (White Caps), gêmeo ao ‘Curussá’, também construído por Domingos Stipanich. Pelo chamuscado acima da linha d’água, o barco acabava de ter sua tinta de fundo removida por maçarico. De quando em vez, é preciso que a tinta seja removida para que a madeira ‘respire’. A foto foi tomada no ICS em 1965. O ‘Itahym’ foi construído originalmente como barco definitivo do Domingos Stipanich. Era todo em Cedro e Cabreúva, com pregos de cobre. No meio da construção, foi trocado pelo ‘Galeão’, que então pertencia ao Luiz Pacheco e Silva, vulgarmente conhecido por ‘Cabeça Branca’, ou ‘Lulú’. O Lulú provinha da aristocracia cafeeira, neto do Barão do Itahym, da região de Itu, originando o nome do veleiro. Era também tio dos irmãos Fernando e Roberto Nabuco de Abreu (‘Wa Wa Too’) os tendo introduzido no esporte da Vela. – Foto: José Carlos Lodovici

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