Ponto de vista: Veleiros verdadeiramente "Clássicos".

 

Nosso grupo é de ‘Velejadores de Clássicos’, e ‘Clássicos’ – com todos os senões que neles possam estar implícitos – são construídos de madeira.

Lamentavelmente, venho notando a presença de um grupo minoritário, com o propósito de detratar os nobres veleiros de madeira.

A respeito dos problemas que lhes são inerentes, não há frase que melhor retrate, do que a do nosso parceiro Roberto Geyer, quando declara que ‘eles’ (de madeira), e os ‘cachorros, jamais podem ser abandonados pelo ‘dono’… Barcos de madeira impõem uma nova visão de vida, uma outra visão de mundo. Nas relações entre o ‘sujeito’ e o ‘objeto’, o barco de madeira acaba fazendo do proprietário o ‘objeto’, quando ele se acha, equivocadamente, agente do processo, estabelecendo uma espécie de simbiose, passando a viver em função do seu próprio veleiro… Barcos de plástico sequer têm cheiro, aliás, cheiro têm: de plástico… Eu, por exemplo, dou preferência pelo cheiro do Cedro, da Cabreúva, da Teca e até mesmo do mofo… A madeira, como todos sabem, goza de consagração milenar.

Em que pesem argumentos em contrário, ninguém sabe durante quantos anos poderá persistir a reação química da cura da resina aglutinante da fibra de vidro, seja ela epóxi ou poliéster, tampouco, das suas propriedades físicas futuras, a despeito do aparente ‘bom aspecto’ da embarcação.

É justamente no esforço extremo, não raro, imposto pelo mar, que o plástico reforçado, eventualmente, apresentará falência estrutural. “É sempre a última ‘palha’ que quebra as costas do elefante…” Estamos, portanto, diante de um ‘desvio de finalidade’ do grupo, por sorte, de uma minoria de dissidentes. Se ‘madeira’ fosse decisão equivocada, o afamado estaleiro alemão – Robbe & Berking – que hoje, indiscutivelmente, figura na lista dos melhores do mundo – não teria construído algumas ‘obras primas’, como a que vemos abaixo. Ou vamos ousar de pô-las em dúvida?

Barco de madeira é fruto de uma empreitada muito mais elaborada. Levam-se anos na sua construção, diferentemente de um barco de plástico, que sai do molde, por vezes, em uma semana… Vale mais a obra manual, original do artista, ou vale a gravura impressa em grande escala?

Entretanto, há exceções: não deixa de ser verdadeiro que, dependendo do porte do veleiro, por conveniências estruturais, impunha-se a adoção de outro material, sem que ele deixasse de ser um ‘clássico’.

A industrialização disponibilizou o ferro, na forma laminada, à construção naval que, aliada ao advento do vapor, puseram término ao ciclo da navegação à vela, mas não aos barcos de madeira… Os últimos clípers foram ‘composites’, os seja: de ferro e madeira, materiais empregados visando à otimização das suas respectivas características estruturais.

O ‘Atrevida‘, construído inteiramente à base de chapas rebitadas, seria um caso, até porque Herreshoff era um ‘steam engineer’ e, logicamente, iria fazer uso da técnica que melhor dominasse.

Isso não significa que bons veleiros contemporâneos não possam ser construídos com outras técnicas e materiais de alto desempenho, entretanto, deixam de ser verdadeiramente ‘clássicos’… A madeira estava (e permanece estando) indissociavelmente vinculada à concepção da obra, haja vista que a nomenclatura das ‘partes’ de um navio voga de acordo como se de madeira fosse. ‘Roda de Proa’, ‘Cadaste’, ‘Quilha’, são ‘partes’, ainda que possam estar hodiernamente integradas ao monobloco de uma embarcação de fibra de vidro.

Pelas limitações próprias da idade, mas também por comodismo e praticidade, eu até teria – hoje – um barco de plástico, mas se possível fosse, eu também teria um outro, de madeira, de preferência, em ‘construção’.

Para mim, ‘problemas’ dessa natureza seriam uma ‘diversão’… Por perverso que possa parecer (e, de fato, seja), um piano, verdadeiramente ‘clássico’, deve ser construído, evidentemente, de madeira e ter o seu teclado do mais genuíno marfim. Se o seu teclado for de plástico, como por razões óbvias o são na atualidade, ele simplesmente deixa de ser um verdadeiro piano clássico… Já que o tema mudou para ‘música’, alguém daqui há se saber o quanto é cobiçado um violino Stradivarius dos séculos XVII e XVIII.

Há quem diga que a exploração da madeira é devastadora, o que não passa de ledo engano, pois trata-se de um recurso renovável, desde que observados os critérios de manejo, reflorestamento ou replantio. Madeira, ao fim das contas, é energia solar sintetizando a clorofila e a celulose. Ademais, quanto mais carbono houver na atmosfera, maior será o crescimento das florestas. Já não ocorre o mesmo com qualquer material alternativo, pois as resinas empregadas na fibra de vidro são derivadas do petróleo, além dos impactos ambientais que envolvem o refino. O mesmo pode ser dito a respeito do aço, alumínio, ou vidro, cuja produção não deixa de ser altamente impactante ao meio ambiente. O emprego da madeira na construção naval impõe maior conhecimento, tecnologia e cultura, eis que um barco de madeira, nada menos do que uma “obra de arte”, não poderia ser realizado com os simples rudimentos de um laminador, ou soldador.

Com toda a tecnologia que anda por aí, a sonoridade deles é insuperável, tal qual o é, o comportamento de um veleiro de madeira no mar… Eles (de madeira) podem até ser mais lentos, mas fazem parte de ‘outro departamento’. Se ‘velocidade’ fosse alguma coisa que ‘constasse ponto’, os incomodados deveriam estar fazendo uso de lanchas ou aviões… Há uma dominante especificidade em nosso grupo.

Ele é de velejadores, mas de ‘Clássicos’, não cabendo aqui depreciar Colin Archer’s, Classes Brasil, double-enders, e todos aqueles que, ainda que contendo defeitos de concepção, próprios da época, foram os responsáveis pelo desenvolvido estágio da vela dos dias atuais.

Vamos cultuá-los, ao invés de depreciá-los…

 

Artigo reproduzido pela SailBrasil com autorização do autor, o Sr. José Carlos Lodovici, e copiado do link no FaceBook… Acesse aqui o link para ver os comentários.

2 comentários em “Ponto de vista: Veleiros verdadeiramente "Clássicos".”

  1. Obrigado Max Gorissen ! Complemento o texto com as seguintes considerações:

    Há quem diga que a exploração da madeira é devastadora, o que não passa de ledo engano, pois trata-se de um recurso renovável, desde que observados os critérios de manejo, reflorestamento ou replantio. Madeira, ao fim das contas, é energia solar sintetizando a clorofila e a celulose. Ademais, quanto mais carbono houver na atmosfera, maior será o crescimento das florestas. Já não ocorre o mesmo com qualquer material alternativo, pois as resinas empregadas na fibra de vidro são derivadas do petróleo, além dos impactos ambientais que envolvem o refino. O mesmo pode ser dito a respeito do aço, alumínio, ou vidro, cuja produção não deixa de ser altamente impactante ao meio ambiente. O emprego da madeira na construção naval impõe maior conhecimento, tecnologia e cultura, eis que um barco de madeira, nada menos do que uma “obra de arte”, não poderia ser realizado com os simples rudimentos de um laminador, ou soldador.

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    1. Boa tarde José Carlos,

      Eu que agradeço por me permitir reproduzir seu texto que tanto agrega à discussão dos veleiros Clássico. Já incluí o trexo onde achei mais pertinente… me diga se quer que o mude de lugar.

      Abraço,

      Max Gorissen

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