Melhor que uma meta atingida, um sonho realizado!

Na quinta-feira 5 de outubro de 2017, por uma coincidência, fiz uma das velejadas mais gostosas da minha vida na Baía de Guanabara, e tomei uma decisão que mudou o curso da viagem.

Coincidência, porque pretendia partir pela manhã do ICRJ para Cabo Frio, ainda no estado do Rio de Janeiro. Mas, como sempre faço antes de partir, procurei a condição de tempo e de vento no trajeto, o Aviso de Mau Tempo para a área (Charlie) e a Carta Sinótica.

Velejando na Baía de Guanabara – Foto: Max Gorissen

Todos indicavam ventos de 28 a 33 nós de E/NE – ou seja, na minha “cara” (proa do veleiro, o que obriga a orçar) – e ondas de 2 a 3 metros pelos próximos cinco dias, uma janela de tempo de um dia e, então, nova frente ainda mais forte por mais cinco dias.

Condições para Cabo Frio – RJ … “porrada” na cara!

A decisão foi fácil: não partir, e ficar no Rio de Janeiro esperando a “porrada” passar.

Então, calmamente, tomei um bom café da manhã no restaurante do ICRJ e fui tirar o Gaia 1 do pontão externo, onde pernoitei de tão exausto que estava por realizar as manutenções do dia anterior. Estava cansado, pois havia tido uma noite péssima já que uma tremenda ressaca na Baía de Guanabara atirou o Gaia 1 a noite inteira contra o pontão externo do ICRJ. Benditas defensas! Mas o chacoalhar com batidas das defensas nas madeiras do pontão e o barulho de cabos se esticando fizeram da noite um terror!

Então, fui velejar e aproveitei para visitar a Baía de Guanabara. Circundei a baía desde o ICRJ, usando como pontos de baliza a Ponte Rio Niterói e a Ponta de Jurujuba, em Niterói, que “fecha” a Enseada de Jurujuba.

Gosto muito de visitar os locais onde a vida no mar é “real”, onde vive e trabalha o povo que tira seu sustento do mar, não os locais produzidos para o navegante de lazer. Então fui procurar estaleiros, cooperativas de pesca, bairros à beira-mar, bases da marinha, porto etc.

Passei até pelo antigo Estaleiro Mauá, do lado de Niterói, com sua antiga sede com duas torres no meio da montanha. Muita da história naval brasileira passou por lá.

Então, depois de visitar tudo, a motor, é claro, dentro da Enseada de Jurujuba (perto do Clube Charitas), subi as velas e saí velejando. Tranquilo, sem forçar nada, aproveitando a beleza daquele lugar, a natureza que me rodeava e a calma de suas águas.

Na enseada faziam 7 a 8 nós, e eu já podia ver que na Baía de Guanabara o mar estava escuro, mostrando um aumento de vento. Calculei uns 10 a 12 nós, o que se confirmou ao chegar lá.

De um través na enseada, passei a uma orça, ainda com velas folgadas, pois queira curtir o entorno. Cristo Redentor e Pão de Açúcar pela proa, todo o Rio de janeiro, Aterro do Flamengo, Aeroporto Santos Dummont e a Ponte Rio-Niterói a boreste, e a entrada da baía com seu forte na Ilha da Laje por bombordo. Na popa ficava a Enseada de Jurujuba. É um visual magnífico e, com esse ventinho e condição do mar, a velejada foi fantástica. Como disse no início, se não foi a melhor, está entre as melhores que já experimentei.

Mas qual foi a decisão que mudou o curso da minha viagem? Bem, durante a velejada e o passeio, me senti tão completo, tão bem, que percebi não só o óbvio – que o que mais gosto na vida é de velejar –, mas também que o day sailing é minha paixão. É o que me faz estar bem. É o meu perfeito. É o que me completa.

Por esse motivo, decidi que não precisava mais seguir em frente. Curti muito aquelas semanas de velejada em solitário e posso afirmar que se não me desse aquele “estalo” naquele dia, seguiria viagem sem problemas até onde fosse. Mas percebi que, apesar de estar bem no mar por um longo período, gosto mais de velejar até cansar, ancorar e dormir na minha cabine ou na minha casa.

Quando decidi iniciar esta aventura, escrevi um texto que anunciava a decisão de fazer uma viagem em solitário, no meu veleiro Gaia 1, partindo em setembro 2017 de Ubatuba – São Paulo, com destino à Miami – Flórida.

O motivo dessa decisão pode parecer simplista e um tanto vago: desde meus 15 anos de idade (hoje tenho 52), sempre sonhei em fazer a volta ao mundo com meu veleiro, e acredito que o trecho Ubatuba-Miami poderia ser considerado “a primeira perna” desse sonho.

Eu poderia tentar justificar essa decisão com motivos mais consistentes, emotivos ou racionais, contudo, como a viagem é para mim, o motivo acima basta. …

… Todos temos sonhos, e alguns deles vivem nos chamando, fazendo-se ouvir. São sonhos que se confundem com a realidade e mostram apenas seu final, já que o caminho depende de cada um decidir como realizar.

Talvez eu não precise realizar a volta ao mundo para concretizar meu sonho. Talvez Ubatuba-Miami seja suficiente… Quem sabe?

Só há um jeito de descobrir e, por isso, com o apoio da minha esposa e do meu filho, em breve vou partir… então parti… No domingo, 24 de setembro de 2017…

Só que, após quase duas semanas no mar, da mesma maneira como decidi que precisava partir, cheguei à conclusão de que não é com uma viagem até Miami ou ao redor do mundo que vou saciar minha vontade de velejar. O que sacia minha ansiedade é, simplesmente: velejar e estar no mar. Percebi que não precisa ser uma viagem longa, podem ser apenas alguns dias…

Eu poderia, novamente, tentar justificar esta decisão com motivos mais consistentes, emotivos ou racionais. Contudo, como a viagem é para mim, o motivo acima basta.

No retorno… Ilha das Couves – Ubatuba – SP – Foto: Max Gorissen

Aguardarei a janela de tempo se abrir para retornar a Ubatuba. Sem pressa, apenas curtindo meu retorno, velejando e estando no mar. Também sinto saudades da minha esposa e do meu filho – mas, para quem iria esperar três meses para o reencontro em Miami, duas semanas não são nada…

 

Bons ventos!

Max Gorissen

 

 

Post anterior: Max Gorissen – Veleiro Gaia 1 – Velejando meu sonho # 2 (Português, English e Español)

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