Bombordo – By Carollina

Uma história real e imaginária, escrita por Carollina Lodder Pereira, aos 14 anos e veiculado pela SailBrasil com autorização de seu pai, o Sr. José Augusto Pereira (Guto)…Vale a pena ler!

A espuma refletia os raios solares e formava arco íris. Esse sempre foi o meu momento favorito no mar; olhar as ondas se chocarem com o casco do veleiro enquanto a espuma dançava no ar por causa do impacto com a luz do sol cruzando a mesma, era uma coisa maravilhosa, a vista era maravilhosa.

Já para o meu pai, a adrenalina era maravilhosa. Estar segurando a roda de leme ao mesmo tempo que o barco se joga para o lado, ao vento se colidir com a vela mestra, era para ele simplesmente extraordinário. Já para mim, extremamente aterrorizante.   

Eram raras às vezes que meu pai alugava um Jeanneau 509, normalmente papai escolhia um barco menor, dávamos um passeio até Paraty, depois voltávamos e comíamos pizza de shitake. Eu gostava disso, era simples, belo, divertido e delicioso. Mas ele achava que seria mais divertido mudar os ares para variar. Então, fomos até o porto de Paraty de carro dessa vez, levantamos a âncora do nosso veleiro e agora, estávamos no meio do caminho para Angra. Não sei se gostei muito disso.

Bia (irmã), José Augusto Pereira (Guto) e Carollina (autora desta história). – Foto: Mônica Pereira

Meu pai estava na popa e eu estava na proa, tirando fotos com a minha nova máquina  fotográfica, que ganhei no meu aniversário. Uma voz grossa foi guiada pelos ventos até meus ouvidos:

  • Bia, vem aqui! – meu pai me chamou com a voz passiva, como sempre.

 Tirei uma última foto da pequena ilha que tínhamos acabado de passar e segui em direção a parte de trás do barco, onde meu enorme pai (não to brincando, ele tem 1,97m de altura) me esperava com seu sorriso empolgante.

  • Eu tive uma ideia maravilhosa – meus cabelos negros cacheados cobriam meu sorriso curioso por causa do vento – você vai pilotar!

 Aquelas palavras fizeram meu sorriso sumir e meu estômago entrar em uma  montanha russa só de lupins. Acho que vou vomitar. Só a ideia de ter que andar de bicicleta em uma avenida, me dava arrepios. Imagina, no auge de meus 10 anos, como eu me sentia ao ouvir que teria que navegar no mar aberto. Eu respondo, pense que você vai ter que enfrentar seu pior medo, multiplique por 10, era assim que eu estava me sentindo, totalmente apavorada.

Meu pai me estendeu a roda de leme e a segurei relutantemente, com as minhas mãos suadas. Eu realmente não estava bem! Apertei meus pequenos dedos contra a madeira escura enquanto suspirava, tentando me acalmar. O vento soprou levemente entre o mastro, empurrando levemente o barco para frente. Empolgado, papai soltou um “Boa, Bia! O veleiro está andando!”. De repente, toda a minha agitação derreteu como um picolé em dias de sol e a surpresa tomou seu lugar. Eu realmente estava navegando, incrível!

Continuei assim, mesmo tendo uma ajuda aqui e ali, eu estava começando a mudar de ideia a respeito de tudo isso, talvez não fosse tão ruim. A maré estava calma, o sol brilhava forte no céu de brigadeiro, o vento cantava uma leve música em meus ouvidos, levando meus cabelos para lá e para cá. Tudo estava perfeito, menos… aquela maldita plataforma de petróleo a frente. Ela foi o início de um trauma realmente grande.

No começo, parecia inofensiva. Seguia vindo devagar e inofensivamente, como se fosse apenas mais um pequeno obstáculo que se conseguiria passar facilmente, tudo isso, uma grande e cabeluda mentira.

Meu pai começou a falar calmamente que eu estava fora de rumo, falou de novo e de novo, e depois disse para eu virar para bombordo. Foi nesse momento que eu entrei em pânico: Onde raios é bombordo? Por que raios ele falou bombordo? Por que eu fico dizendo “raios”? As perguntas mais malucas que alguém poderia pensar, rodeavam minha mente atrás de alguma resposta lógica para onde era bombordo. Então, fui no chute, virei a roda de leme para a direita. Péssima escolha!

Virei minha cabeça para frente e me deparei com enormes colunas de concreto saindo das profundezas. Ai meu Deus! Eu ia bater o barco e matar todo mundo! Socorro! Comecei a sentir choques por todo meu corpo, meu coração martelava o mais rápido do que era possível contra meu tórax, meus pulmões suplicavam desesperadamente por ar e o suor escorria pela minha pele deixando em meus lábios um gosto salgado.

Iriamos bater, iriamos morrer, iriamos boiar no oceano atlântico e nunca seriamos achados. Minhas mãos tremiam enquanto eu esperava pelo fim. Era isso, morreria sem saber o que acontece no fim de “The Flash”, morreria sem antes ter tido um cachorro, morreria sem o gosto da torta de amora da vovó em minha boca. Acabou, adeus mundo!

Antes que pudesse sentir o impacto, o barco virou para a esquerda (esse é o bombordo!) me jogando contra o chão quente, aquecido pelo sol, sem mais nem menos. O impacto me deixou atordoada e lágrimas começaram a descer lentamente de meu olhos (que estavam mais para piscinas), sem eu ao menos conseguir processar o motivo. A irritante risada de meu pai ecoava no barco:

  • Meus Deus, essa vai ser uma história incrível para contar a sua mãe! – exclamou ainda soltando gargalhadas entre as palavras, segurando o leme que antes havia tomado das minhas mãos para que não fossemos para o céu.

Parecia que ele não entendia o quão trágico havia sido esse momento! Ele ria e, por trás de suas lentes, seus olhos pareciam estar se divertindo repassando todo esse episódio em sua mente. Como assim? Ele achava engraçado a morte quase iminente?! Ele só podia ser louco!

Eu logo descobri que realmente era: em todos os natais, anos novos, páscoas ou qualquer feriado do tipo, ele contava a famosa história de Beatriz Alves ter quase batido em uma plataforma de petróleo como se fosse a melhor lembrança do mundo e não o trauma da vida de uma criança.

Por Carollina Lodder Pereira

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