Subir a linha d’água tirando coisas imprescindíveis!

 

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Moitões, patescas e manicacas guardadas em algum paiol de meu veleiro.

Ainda não tenho certeza se são os veleiros que precisam de “coisas” ou se somos nós, os proprietários, que precisamos delas, e as acumulamos.

De qualquer maneira, não importa, pois o acúmulo de “coisas imprescindíveis”, mas que nunca serão usadas, é um fato em qualquer embarcação.

Mas preciso fazer uma ressalva. Se você é um velejador de marina ou de cruzeiros rápidos, provavelmente terá um lugar em terra para guardar a maioria dessas coisas. Pode ser entulhado em um armário na marina, embaixo do bote de apoio murcho jogado num canto dela, na sua residência ou na casa de amigos – não importa: pelo menos não estará ocupando o escasso e concorrido espaço disponível dentro da embarcação.

Antigos eletrônicos e outras "cositas más" substituídos e guardados em caixa de plástico.
Antigos eletrônicos e outras “cositas más” substituídos e guardados em caixa de plástico.

Por outro lado, se você é um velejador de cruzeiro de longo percurso ou duração, acumular coisas no veleiro significa apropriar-se de importante espaço de estocagem.

Claro que grande parte desse problema é causado por nós mesmos. Simplesmente, estamos acostumados, na nossa vida em terra, a comprar: compramos demais, guardamos demais, jogamos fora de menos e doamos menos ainda.

Exemplos não faltam. Estes são alguns baseados em experiência própria:

Não basta comprar defensas novas, temos de guardar as velhas para o caso de necessidade;

Não basta comprar equipamentos eletrônicos novos, temos de guardar o velho fish-finder, o antigo GPS  e outros eletrônicos para o caso de uma eventualidade;

Não basta comprar cabos novos, temos de guardar os velhos e, ainda, os recortes depois de cortar na medida certa os que vamos usar… É cabo!, sempre se pode precisar;

Não basta comprar parafusos, porcas e arruelas novas, temos de guardar as velhas para o caso de precisarmos algum dia;

Não basta comprar manilhas novas… opa! Neste caso, as antigas sim são importantes e vão servir algum dia! Sei, tenho um monte que, inclusive tortas, guardo para esse tal dia;

Não basta comprar lanternas novas, agora de LED, para substituir as antigas: é bom guardar as mais velhas para o dia em que as de LED não funcionem;

Não basta comprar novos mordedores, catracas, stoppers, organizadores de cabo etc. Sempre guardaremos os velhos para o caso de algum dia os novos darem problema;

E, por último, apesar de que esta lista pode ser interminável – certamente com os exemplos acima você já deve ter entendido e se identificado com algumas (ou todas) essas situações –, cupilhas!

 

Várias "coisas" que guardei para o dia que precisar... sob a pilha de peças, existem umas 25 abraçadeiras de aço inox usadas... algum dia posso precisar!
Várias “coisas” que guardei para o dia que precisar… sob a pilha de peças, existem umas 25 abraçadeiras de aço inox usadas… algum dia posso precisar!

 

Sim, cupilhas… No meu caso, o que acho mais absurdo de todas as tralhas que, por algum motivo (deve ser problema psicológico) acumulo, são as cupilhas. Podem estar velhas e retorcidas, ainda assim as guardo para o caso de algum dia precisar… Mesmo tendo um conjunto novo e completo, com vários tamanhos, que compro regularmente quando viajo (nos Estados Unidos você compra uma caixa com cupilhas, que por lá se chamam Stainless Steel Cotter Ring, de diversos tamanhos e medidas, por uns 17 dólares ).

 

 

Antigo GPS 3000 XL da Magellan, cream-de-la-cream na época... anos 90... ainda funciona... acho...
Antigo GPS 3000 XL da Magellan, cream-de-la-cream na época… anos 90… ainda funciona… acho…

Bom, problemas psicológicos à parte, o barco vai ficando entulhado, apertado, pesado e, o que é pior; para encontrar alguma “coisa”, precisamos procurar em vários locais e muitas vezes tirar várias outras “coisas” de cima.

Veja esta situação. Se você veleja, já deve ter vivido algo semelhante…

Você está navegando, mar agitado, mas a brisa está boa e o veleiro desliza adernado… entra rajada, você orça um pouco para aproveitar a rajada… ele aderna mais um pouco… você sente aquela sensação fantástica da aceleração… tudo está sob seu controle… você pede para um tripulante adriçar um pouco mais a genoa pois sente que pode melhorar o ângulo de entrada do vento na vela… o draft da genoa muda para frente… a valuma fecha e melhora o fluxo de ar que passa pelo canal formado com a mestra… você vê que as birutinhas (ou lãzinhas) da genoa ainda não estão paralelas… arriba um pouco… o veleiro avança perfeito… o leme está leve… tudo parece perfeitamente ajustado… a vida é bela… então, de repente… bang! a genoa começa a planejar… uma rápida olhada pelo deck e pelos equipamentos relacionados com a genoa mostram que a roldana do carrinho soltou… ela bate junto com a escota, agora folgada… um tripulante avalia o problema e diz que o pino e a cupilha se foram… não dá mais para prender… você pensa rápido… colocar outro pino e cupilha vai ser complicado… hora de pegar a patesca e montar um barberhaul de emergência para estabilizar a genoa e continuar a velejar… alguém tem de buscar a patesca que está guardada no paiol embaixo do sofá de estibordo… você dá um grito para um tripulante buscar a patesca… xinga o tripulante quando ele pergunta fazendo cara de total ignorância: “Pegar o quê?”… pede para alguém assumir o leme… vai pegar você mesmo… se arremessa e desce as escadas… então, tira o acolchoado do sofá e joga num canto… tira a tampa do paiol e joga junto com o acolchoado… olha e vê que tem uma sacola cheia de pirotécnicos em cima… pensa “Não me livrei destes na semana passada, quando trouxe os novos?”… não dá tempo de entender por que ainda estão ali… tira a sacola e joga por cima do acolchoado e da tampa… tem uma caixa de plástico no fundo… o que será que tem dentro? não importa… a patesca não vai estar dentro da caixa… você tira a caixa e coloca por cima do acolchoado, da tampa, da sacola… volta a se concentrar no paiol… no fundo, um pouco de água já marrom se acumulou… vê umas roldanas na água… estão marrons também… mas que m@$#%@!… ok… resolvo isso mais tarde… vai tirando as roldanas e colocando em cima do acolchoado, da tampa, da sacola, da caixa… não acha a patesca… alguém grita do convés… “Achou?”… “Não!”, você responde já sem paciência… olha para o outro paiol e também tira a tampa… apoia a tampa em cima do acolchoado, da outra tampa, da sacola, da caixa e de vários moitões molhados e marrons… que pingam água no acolchoado… @#$%#@… olha dentro do novo paiol… dentro, no topo, dois coletes salva vidas Classe I… amassados… com umas manchinhas pretas de mofo… você tira os salva-vidas e joga por cima da pilha formada pelo acolchoado, tampa, sacola, caixa, moitões, a outra tampa, pois a pilha ficou alta demais e não dá mais para colocar os coletes salva vidas em cima… olha para a barreira que se formou entre você e a escada para o convés… pensa “Por que coloquei tudo isso junto?”… não importa, o importante é encontrar a patesca… olha dentro do paiol… a buja de tempestade que rasgou mês passado está ali… ainda rasgada… rápida anotação mental: levar a buja de tempestade para arrumar urgente!… tira a buja e joga do seu outro lado… dentro do paiol não tem mais nada a não ser um pouco da água do outro paiol que se interliga a este… você olha para a buja… @#$#%#… o lado de baixo da buja, que agora está por cima, está todo molhado e amarronzado… escorre água no acolchoado do sofá de boreste, onde você apoiou a buja… mais um @#$#¨&¨%&*$%, um pouco mais enfático desta vez… desiste… meio sem jeito, pula a pilha de coisas caindo torto com o balançar do veleiro… se segura na antepara de trás do sofá… pega uma sobra de cabo que está na mesa de navegação e sobe ao convés… agarra a escota e a acompanha com as mãos até pegar o moitão… amarra o cabo à base do moitão… passa a outra ponta do cabo pelo cunho de través e caça… a escota desce ao nível do convés… você caça a escota pela catraca e pede para o tripulante na roda de leme orçar… tudo se acalma… o veleiro aderna… você caça mais um pouco a genoa até próximo do guarda-mancebo e, ao mesmo tempo, um tripulante caça a mestra… o veleiro aderna mais um pouco… então, mais um barulho… não, não é outro “bang!”, está mais para um “blurrublumpumPAM!”… cai a ficha… você grita… $#@@%#%&!!!… tudo o que você empilhou dentro do veleiro foi parar no bordo oposto com a adernada… o veleiro continua sua rota e tudo se acalma… nova anotação mental: depois de arrumar tudo lá dentro, tenho de me livrar das tralhas que não uso!

3 Spinnakers (balões) para veleiro de 40 pés em bom estado... talvez seja hora de vender já que troquei por um Gennaker!
3 Spinnakers (balões) para veleiro de 40 pés em bom estado… estavam todos embaixo da cama de proa… talvez seja hora de vender, já que troquei definitivamente por um Gennaker! Será que vai ser definitivo? Não será melhor guardar por mais um pouco? …

Mas, espere… peças, velas, cabos e eletrônicos sem uso são somente parte do problema. Ainda não falamos dos produtos de limpeza e lubrificação.

Quem não tem um armário cheio de produtos de limpeza ou lubrificação? Desculpe, melhor fazer a pergunta de maneira diferente: quem não tem um armário cheio de embalagens quase vazias, muitas vezes com menos da metade de seu conteúdo, ocupando o mesmo espaço de uma embalagem cheia?  Nunca vi uma embalagem que diminui à medida que seu conteúdo diminui, a não ser aquelas bisnagas que não dá para fechar depois de abertas e que, se quisermos guardar, temos de colocar dentro de outra embalagem…

São embalagens de óleo para o motor de centro, óleo para o motor de popa, graxas para as mais diversas aplicações, fluido para o cooler, silicone spray, WD40 e, até, pasmem, já vi grafite em pó (sim, aquela coisa viscosa que ao ser aplicada, mancha e suja tudo).

Cabos velhos e mais cabos e, ainda, pedacinhos de cabos!
Cabos velhos, cabos novos e, ainda, pedacinhos de cabos!

Bom, se fosse uma embalagem de cada produto, ainda vai, mas geralmente são várias… e de tamanhos diversos. Muitas vezes, enormes! Por exemplo, você pode ter comprado a embalagem de óleo de 5 litros e, como SEMPRE, usa parte e guarda o resto para um uso futuro, mesmo que o resto seja menos de 1 litro (lembre-se de que, mesmo com 1 litro, a embalagem continua ocupando o espaço de 5). E isso é só o começo… Mania de colocarem xampu para lavar o deck em embalagens grandes: elas duram meses e meses ocupando espaço no porão.

E almofadas e travesseiros. Coisa de mulher, dirão. Engano. Tem muito marmanjo que coloca um monte de almofadas como decoração ou para seu “conforto”. O problema é que as almofadas ocupam espaço, além, é claro, de ficarem jogadas pelo chão do veleiro quando velejamos adernados. No primeiro bordo, lá vão elas para o chão. E nem vou entrar na discussão de como ficam úmidas, tanto pela própria umidade do ambiente náutico, quanto por aquele descuido de deixar a gaiuta de proa aberta em uma orça “molhada”.

Para quem já teve de fazer a cama antes de dormir, junto com os travesseiros, as almofadas estão sempre incomodando e, como não temos espaço de sobra na cabine, nem uma cômoda para apoiá-las, elas são jogadas no chão mesmo. Ao acordar, refazemos a cama e colocamos tudo de novo sobre ela… até ir dormir, quando as almofadas voltam para o chão ou você se espreme entre elas.

Troquei os registros do meu veleiro por novos de Marelon, um plástico especial para embarcações... guardo os antigos para o caso de algum dia precisar?
Troquei os registros do meu veleiro por novos de Marelon, um plástico especial para embarcações… guardo os antigos para o caso de algum dia precisar?

E não para por aí… Podemos falar das panelas, dos vários jogos de pratos e copos, das várias caixas de ferramentas mantidas por causa do excesso de ferramentas, do motor de popa, dos remos, sacos de velas de vários tamanhos, caixa térmica, macarrão (aqueles tubos de espuma coloridos que flutuam), livros, DVDs, CDs etc. Ah!, esqueci: agora é moda ter um stand up (prancha a remo) que, irremediavelmente, acaba dentro da cabine para ninguém roubar…

Bom, não vou me alongar mais no relato. Ao contrário, vou tirar já do meu veleiro tudo que não serve ou, acredito, não vou mais usar. Claro que, em vez de jogar fora, vender ou doar, vou guardar em casa, para o dia em que precisar, afinal. E se eu realmente precisar de alguma destas “coisas” algum dia?     🙂

Quanto às cupilhas, difícil decisão… Mas chegou a hora de me livrar das que estão em pior condição…

OBS:

Tudo o que está nas fotos, com exceção dos moitões, patescas e manicacas da primeira foto deste texto, foram retiradas do meu veleiro… e guardados em casa… a linha d´água subiu uns 6 cm e um monte de espaço foi liberado… os produtos de limpeza e suas embalagens também forma limitados. Também fiz uma organização dos talheres e coisas de cozinha… tinha um monte de coisas repetidas… pegador de macarrão, tinha 3 modelos diferentes!

E, para finalizar, para quem não sabe, estas são as patescas mencionadas no texto acima:

Quando comprei o veleiro, encontrei estas duas Patescas antigas embaixo da corrente no paiol de proa... estavam totalmente sujas e travadas pelo excesso de graxa. Depois de limpas, funcionam perfeitamente e hoje são guardadas dentro do veleiro.
Quando comprei o veleiro, encontrei estas duas Patescas antigas embaixo da corrente no paiol de proa… estavam totalmente sujas e travadas pelo excesso de graxa. Depois de limpas, funcionam perfeitamente e hoje são guardadas dentro de um paiol embaixo do sofá de bombordo.

E, estas, são as famosas cupilhas:

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Bons ventos!

 

Max Gorissen

Editor SailBrasil.com.br e Velejador

 

 

4 comentários em “Subir a linha d’água tirando coisas imprescindíveis!”

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